BOCCACCIO (1313-1375)

Quero, entretanto, que baste a parte da novela que contei até este ponto; assim passarei a dirigir-me àqueles para os quais a narrei.
   
Dizem, pois, alguns dos meus repreendedores, que eu faço mal, oh! jovens mulheres!, empenhando-me, como me empenho, no sentido de agradar a vocês; e acrescentam que eu gosto muito de vocês. Confesso, abertissimamente, estas coisas, isto é, que eu gosto de vocês e que me empenho por agradar a vocês!
   
Pergunto eu, aos referidos censores, se eles se maravilham diante do fato narrado naquela novela. Deixemos de lado os que possam ter conhecido os beijos amorosos, os abraços agradáveis e as relações intimas que de vocês, dulcíssimas mulheres, hajam podido conseguir. Tomemos em consideração somente os que viram e continuam vendo os costumes elegantes, a beleza encantadora, o porte senhorial e a honradez feminina. Se estes não deixam de agradar a vocês, nem de gostar de vocês, não se pode pretender que o deixe um moço nutrido, crescido e formado no topo de um monte silvestre e solitário, dentro dos limites de uma cela pequena, sem outra companhia, a não ser a companhia do pai. Assim que ele viu as moças, elas passaram a ser as únicas coisas por ele desejadas, por ele solicitadas, por ele exigidas com afeto.
   
Ora: — se vocês, lindas mulheres, se tornaram desejadas ansiosamente por um eremitazinho, por um mocinho sem sentimentos claros, que bem se pode dizer que era um animal das selvas, que erro há na circunstância de eu gostar de vocês, e de me empenhar em agradar a vocês? Repreendem-me, mordem-me, laceram-me os críticos; mas eu tenho um corpo que Deus fez todo aparelhado para amar vocês; aliás, desde a infância, predispus o ânimo nesse sentido, por perceber a virtude da luz dos seus olhos, a suavidade das suas palavras melífluas, e a labareda acesa pelos seus suspiros densos de desejos. Não há dúvida de quem não ama a vocês, nem aspira a ser por vocês amado, age como pessoa que não sente, nem conhece, os prazeres do amor, nem a virtude da afeição natural. É por assim agir que me censuram; e eu pouco me incomodo.
   
Há os que falam contra a minha idade; esses mostram que mal sabem a razão pela qual o alho porro tem a cabeça branca, apesar de possuir cauda verde. A esses, deixando os motejos de lado, respondo que eu, até ao extremo final de minha vida, nunca reputarei ser vergonha a aspiração de agradar às mulheres; a elas, Guido Cavalcanti e Dante Alighieri já idosos, e o Senhor Cino da Distóia, já velhíssimo, prestaram honras e homenagens; e eles todos muito quiseram agradar às mulheres. Se eu não fizesse questão de não sair da maneira comumente usada na argumentação, apresentava, de permeio, histórias cheias de episódios em que homens, antigos e valorosos, mesmo nos seus anos mais maduros, se requintaram no esforço de agradar às mulheres. Se os meus críticos não sabem disto, leiam —— e aprendam que assim é. O de que eu deveria permanecer com as Musas do Parnaso, afirmo que é bom conselho; entretanto, nem nós podemos residir em companhia das Musas, nem elas podem ficar conosco. Se, quando o homem se separa das Musas, mesmo assim aquelas tem, no aspecto, semelhanças com estas. De modo que, ainda que das mulheres por outros títulos eu não gostasse, teria de gostar delas por este. Acresce que as mulheres já foram, para mim, causa de composição de mil e um versos, ao passo que as Musas me ajudaram, mostrando-me como compor aqueles mil e um. É provável, igualmente, que, para eu escrever estas coisas, embora estas coisas sejam humílimas, elas tenham vindo várias vezes estar comigo, talvez a serviço e em honra da semelhança que as mulheres tem com elas. Tecendo estas coisas, não me distancio, nem do monte Parnaso, nem das Musas, tanto quanto muitos dos meus censores se aventuram a admitir.
   
Entretanto, que é que vamos dizer àqueles que manifestam tanta compaixão para com a minha fome, e que me aconselham a tratar de ganhar meu pão? Por certo, não sei. Todavia, estive pensando na resposta que eles me dariam, se eu, por necessidade, lhes pedisse; e creio que então diriam: — “Vá; procure entre as fábulas!” — A verdade é que mais pão encontram os poetas, entre seus escritos, do que muitos ricos entre seus tesouros. Muitos autores, a correr atrás de fábulas, fizeram com que a sua idade florisse; ao passo que muitos ricos, ao contrário, procurando conseguir mais pão do que precisavam, morreram como frutos azedos que murcham. Que mais? Ponham-me da porta para fora estes indivíduos, se por acaso eu lhes pedir algo. Contudo, por mercê de Deus, de nada ainda preciso. E mesmo que sobreviesse a necessidade, eu sei, conforme o Apóstolo, limitar-me e padecer privações. Por isto, ninguém se compadeça mais de mim, do que eu mesmo.
   
Aos que afirmam que as coisas aqui narradas não se passaram como aqui são apresentadas, digo que muito gostaria que exibissem os dados originais. Se os originais discordassem daquilo que escrevo, então eu proclamaria como sendo justa a repreensão que eles formulam, e eu procuraria emendar-me. Todavia, enquanto não aparecem mais do que palavras, eu os deixarei com a opinião que formaram, e continuarei sustentando a minha, com o direito de dizer, deles, o que eles de mim dizem. Acho que, por esta vez, já respondi o bastante. E digo que, armada da ajuda de Deus, em quem espero, e da ajuda de vocês, gentis mulheres, bem como de grande e boa paciência, prosseguirei no meu trabalho, dando as costas a este vento, e deixando que ele sopre. Porque eu não vejo o que pode acontecer comigo, além daquilo que acontece com a poeira miúda; quando o turbilhão revoluteia, ou ele não move a poeira, ou, se a move, a leva para o alto; por vezes a leva tão alto, que ela se sobrepõe à cabeça dos homens, às coroas dos reis e dos imperadores, e, de quando em quando, também aos palácios e às torres excelsas. Se a poeira, depois, cai, de tais alturas, não pode descer mais baixo do que o ponto de que foi removida. Se, pois, sempre me dispus, com todas as minhas forças, a comprazer de vocês, lindas mulheres, agora, mais do que nunca, a isso me disponho; porque sei que ninguém poderá dizer nada, com razão, a não ser que diga que os outros e eu, que amamos a vocês, agimos de acordo com as leis da Natureza. Para alguém se opor às leis da Natureza, de muita força terá de fazer uso; com frequência, porém, não só o esforço é baldado, mas também enorme dano ele acarreta a quem o despende. Confesso que não possuo a mencionada força, nem teria o desejo de a possuir, neste caso; se eu tivesse tal força, preferiria emprestá-la a outrem, do que utilizá-la para mim. Assim sendo, calem-se os mordedores; se eles não conseguem aquecer-se, que vivam atormentados pelo frio, e que permaneçam nos seus prazeres, ou, melhor, nos seus apetites corrompidos. Deixem-me ficar, porém, no meu prazer, ao longo desta breve vida que nesse prazer está posta.
   
Devemos agora voltar ao ponto em que encontrávamos, porque deles já nos afastamos muito, oh! lindas mulheres! Temos de prosseguir na ordem começada.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato

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