BOCCACCIO (1313-1375)

Mulheres caríssimas: tanto pelas palavras dos homens esclarecidos, que ouvi, como pelas coisas muitas vezes por mim vistas, ou lidas, afigurou-se-me que o vento impetuoso e queimante da inveja não deveria açoitar senão as altas torres, ou os cimos mais elevados das árvores. Verifico, porém, que laborei em erro, porque, tendo eu fugido, e tendo-me sempre empenhado em fugir, do ímpeto brutal deste espirito raivoso, procurei andar não somente pelas baixadas, mas também pelos vales mais profundos. Isto se porá de manifesto aos olhos de quem prestar atenção às pequenas novelas presentes.
   
Estas novelas não somente foram por mim escritas em florentino vulgar, em prosa e sem título, mas também o foram em estilo humilíssimo, tão modesto como o que mais o seja. Nem pude deixar de escrever, embora severamente vergado, talvez mesmo quase desenraizado, e todo lacerado pelas mordidas da inveja. Por tudo isto, muito claramente posso compreender aquilo que os sábios soem dizer que é verdade, isto é, que somente a miséria não é invejada, dentre as coisas presentes.
   
Apareceram, pois, minhas discretas mulheres, alguns indivíduos que, depois de ler estas pequenas novelas, disseram que eu gosto excessivamente de vocês, e que não é coisa honesta a circunstância de eu auferir tanto deleite do ato de agradar e de consolar a vocês. Alguns até disseram coisa pior: do ato de as recomendar, como as recomendo. Outros, mostrando que procuraram falar mais maduramente, disseram que, na minha idade, não fica bem, já agora, a gente entregar-se a tarefa semelhante, isto é, a falar de mulher e a agradá-las. Muitos, mostrando que são muitos zelosos da minha fama, afirmam que eu agiria mais prudentemente se ficasse com as Musas, no Parnaso, ao invés de misturar-me entre vocês, com este cavaquear. Por fim, existem os que, falando mais por despeito, do que por clareza de espirito, alardearam que eu procederia com mais sensatez levando a termo algo que me proporcionasse pão, do que pascendo o meu espírito de vento, por entre estas ramagens. Há, ainda, certos outros que se esforçam por demonstrar, em detrimento do meu trabalho, que as coisas por mim contadas transcorreram de outra maneira, e não como eu as apresento.
   
Assim, pois, minhas queridas mulheres, enquanto eu milito ao seu serviço, vejo-me suspenso, molestado e até ferido em carne viva, por vociferações desta ordem, e por dentro assim agudos e assim atrozes. Todas estas coisas, Deus o sabe, ouço e entendo com ânimo cordial. Embora caiba a vocês toda a minha defesa, não pretendo, mesmo assim, poupar minhas forças; ao contrário: sem responder, até ao ponto em que seria conveniente fazê-lo, pretendo tirar tudo isto dos meus ouvidos com o recurso de uma leve resposta — e isto sem mais demora.
   
A razão é esta: eu ainda não cheguei ao terço de meu trabalho, e já os críticos, além de serem muitos, são muito presunçosos; tenho a impressão de que, antes que eu chegue ao fim, eles, não sofrendo, de inicio, repulsa alguma, se multiplicarão por tal forma, que depois poderão derrubar-me até com o mais fraco dos empurrões; e a esta altura, para nenhuma resistência serviriam, minhas queridas mulheres, as suas forças, por maiores que elas viessem a ser.

O DECAMERÃO
Quarta Jornada: Filóstrato

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