FLAUBERT (1821-1880)

Paris, mais vago que o oceano, cintilava, pois, aos olhos de Emma numa atmosfera escarlate. A vida numerosa que se agitava naquele tumulto estava, entretanto, dividida por partes, classificada em quadros distintos. Emma só percebia dois ou três, que lhe escondiam todos os outros, e representavam por si sós a humanidade completa. O mundo dos embaixadores caminhava sobre assoalhos luzentes, em salões com lambris de espelhos, em torno de mesas ovais cobertas com um tapete de veludo com franjas de ouro. Havia ali vestidos de cauda longa, grandes mistérios, angústias dissimuladas sob sorrisos. Vinha depois a sociedade das duquesas; nela as pessoas eram pálidas; levantavam-se às quatro horas; as mulheres, pobres anjos! Usavam barra inglesa na fímbria de suas saias, e os homens, capacidades desconhecidas sob aparências fúteis, aguavam os seus cavalos em partidas de prazer, iam passear em Bade na estação do estio, e, pelos quarenta anos finalmente, casavam-se com herdeiras. Nos cabines de restaurante onde se janta depois da meia-noite, ria, à claridade das velas, a multidão dissonante dos homens de letras e das atrizes. Esses eram pródigos como reis, cheios de ambições ideiais e de delírios fantásticos. Era uma existência acima das outras, entre o céu e a terra, nas tempestades, algo de sublime. Quanto ao resto do povo, estava perdido, sem lugar preciso, e como não existindo. Quanto mais as coisas, aliás, eram vizinhas, mais a sua mente se desviava delas. Tudo que a cercava de imediato, o campo enfadonho, pequenos burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso particular em que ela se encontrava presa, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país das felicidades e das paixões. Ela confundia, no seu desejo, as sensualidades do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos costumes e as delicadezas dos sentimentos. Não eram necessários para o amor, como para as plantas indígenas, terrenos preparados, uma temperatura particular? Os suspiros ao luar, os longos abraços, as lágrimas que correm nas mãos que se abandonam, todas as febres da carne e os langores da ternura não se separavam pois do balcão dos grandes castelos que estão cheios de lazeres, de um boudoir de cortinas de seda com um tapete bem espesso, jardineiras repletas, um leito montado sobre um estrado, nem do cintilar das pedras preciosas e das fitas da libré.

MADAME BOVARY



Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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