STENDHAL (1783-1842)

"Estarei amando Julien?", perguntou-se enfim.

Essa descoberta, se em outro momento qualquer a teria mergulhado no remorso e numa agitação profunda, foi para ela um espetáculo singular, porém de certa forma indiferente. Sua alma, esgotada por tudo o que acabava de sofrer, já não dispunha de sensibilidade a serviço das paixões.

A sra. de Rênal quis trabalhar, e caiu num sono profundo; quando acordou, não se assustou tanto quanto deveria. Estava feliz demais para reprovar o que quer que fosse. Ingênua e inocente, jamais essa boa provinciana teria torturado a própria alma para tentar arrancar-lhe um pouco de sensibilidade a alguma nova nuance de sentimento ou infelicidade. Inteiramente absorvida, até a chegada de Julien, naquele infinidade de trabalhos que, longe de Paris, cabe a uma boa mãe de família, a sra. de Rênal pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos.

O VERMELHO E O NEGRO

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