JORGE DE LIMA (1895-1953)

Quando cheguei, percebi Isadora apoiada à muralha, segurando um arco-íris.
Enquanto a olhava para convencer-me de sua presença,
viu, voltando para mim o rosto em que brilhava uma súbita alegria.
Era como se fosse uma irmã mais nova ou um desdobramento de meu ser,
talvez a última deusa construída por mim
ou ressurreta pela minha memória.
Isadora provinha de gerações ignotas
e era a repetição das faces e dos ventres que imaginei.
Na verdade Isadora é um minuto de minha criação
e apenas ficou em mim para brotar de meu sono e deu companheiro.
Súcubo, flutua Abel nos olhos de Isadora,
e nos pés há o amado Caim que tanto caminhou.
No fim há um incesto bíblico entre mim e Isadora,
entre seu pensamento e minha memória,
tudo partindo de um pensamento único.
Isadora é minha irmã ou a parte feminina de meu ser
ou a minha queda ou a minha Eternidade.
Isadora foi, porém, criada para meu flagelo,
para Deus não me esquecer e me imanar a Jó.
Pela décima vez reconheci Isadora com um arco-íris na mão, encostada à muralha,
e voltando para mim o rosto, era como um sol nascendo.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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