DICKENS (1812-1870)

Não havia hesitação, nem misericórdia, nem paz, nem um piedoso intervalo para repouso, já não havia medida de tempo. Embora os dias e as noites descrevessem seus ciclos de modo tão regular como quando o tempo era jovem e a noite se sucedia à manhã do primeiro dia, não havia outra forma de contar o tempo, cujo controle se perdera na fúria febril de uma nação. Agora, rompendo o silêncio sobrenatural de uma cidade inteira, o carrasco exibia ao povo a cabeça do rei, e agora, dando a impressão de acontecer exatamente no mesmo instante, a cabeça de sua bela rainha, encanecida em oito meses de viuvez e miséria na prisão.

E, contudo, em virtude da estranha lei da contradição que impera em tais circunstâncias, quanto mais o tempo corria, célere, tanto mais lento parecia. Um tribunal revolucionário na capital, e quarenta ou cinqüenta comitês revolucionários em todo o país; uma lei de Suspeitosos, que, agredindo a segurança de liberdade e de vida, confiava qualquer pessoa inocente e boa às mãos de qualquer outra culpada e perversa; as prisões transbordavam de pessoas que não haviam praticado nenhum crime e não tinham direito de defesa. Tudo isso passou a constituir a ordem estabelecida e a natureza da disposição de propriedade, e parecia um costume antigo quando apenas completara algumas semanas. Mais do que todas, uma hedionda figura tornou-se tão familiar como se existisse desde o início dos tempos, uma afiada figura de gênero feminino chamada La Guillotine.
Era o tema popular dos gracejos; indicada como o melhor tratamento para dor de cabeça ou como a melhor forma de evitar cabelos brancos, imprimia uma peculiar delicadeza à compleição física, era a Navalha Nacional que proporcionava um corte de barba mais rente; aqueles que beijavam La Guillotine espiavam pela janelinha e espirravam no saco. Era o sinal da regeneração da raça humana. Suplantava a cruz. Miniaturas eram exibidas sobre os seios de onde o crucifixo fora descartado, era objeto de veneração e crença quando a cruz era negada.
Decepou cabeças tantas que se tingiu, e ao chão que poluiu tanto, de um vermelho pútrido. Foi desmontada, como um simples brinquedo, um quebra-cabeça de algum demônio infame, e foi novamente montada quando a ocasião exigiu. Calou os eloqüentes, abateu os poderosos, destruiu a beleza e a bondade. De vinte e dois amigos de grande notoriedade pública, sendo vinte e um vivos e um morto, cortou as cabeças, numa só manhã, em vinte e dois minutos. O nome do homem forte do Velho Testamento, Sansão, foi atribuído ao chefe dos carrascos. Mas, assim armado, ele era mais forte e mais cego do que seu homônimo, e destruía as colunas do templo todos os dias.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta.
Capitulo IV. Calmaria em Meio à Tormenta

Comentários