DICKENS (1812-1870)

O doutor Manette só retornou na manhã do quarto dia de sua ausência. Tanto empenho se fez em ocultar ao máximo de Lucie o que aconteceu nessa época terrível que só muito tempo depois, já longe da França, ela veio a saber que mil e cem indefesos prisioneiros de ambos os sexos e de todas as idades tinham sido mortos pelo populacho, que quatro dias e quatro noites foram cobertos de sombras por esse ato de horror, e que a atmosfera que a cercava estivera corrompida pelo massacre. Só então ela soube que as prisões tinham sido atacadas, que todos os prisioneiros políticos haviam corrido perigo e que muitos haviam sido arrastados pela multidão e assassinados.

Para o senhor Lorry, o doutor comunicou, depois de lhe pedir segredo, uma precaução evidentemente desnecessária, que a turba o conduzira por um cenário tenebroso até a prisão de La Force. Que, lá chegando, deparou-se com um autonomeado tribunal, perante o qual os prisioneiros eram levados individualmente, e onde rapidamente era determinada a sua morte na carnificina, ou sua libertação, ou, o que era mais raro, a voltarem para suas celas. Que, apresentado por seus acompanhantes a esse tribunal, ele declinou seu nome e profissão, e declarou ter sido, por dezoito anos, um secreto e não formalmente acusado prisioneiro da Bastilha. Que um dos membros do tribunal levantou-se e identificou-o, e que esse homem era Defarge.
Que, e a esse respeito ele tinha averiguado nos registros sobre a mesa, seu genro estava entre os prisioneiros vivos, e que, então, apelou com veemência ao tribunal popular, do qual alguns membros dormiam, outros mantinham-se acordados, uns se mostravam ensanguentados pelos crimes praticados, outros se mostravam limpos, alguns estavam sóbrios e outros não, por sua vida e liberdade. Que, nos primeiros frenéticos e copiosos gestos de saudação que lhe dirigiram como um notável mártir do sistema derrubado, concordavam em trazer Charles Darnay diante da corte ilegal para interrogatório. Que lhe pareceu que Darnay estava a um passo de ser libertado quando a maré a seu favor chorou-se contra um obstáculo inexplicável, ao menos, incompreensível para ele, doutor Manette, e o tribunal decidiu reunir-se em conferência secreta. Que o homem que presidia o tribunal, então, informou-o de que o prisioneiro deveria permanecer sob custódia, mas que, em consideração a ele, doutor Manette, seria declarado inviolável. Que imediatamente, a um sinal, o prisioneiro foi novamente removido para o interior da prisão. Mas que ele, doutor Manette, suplicou vigorosamente permissão para ficar e certificar-se de que o genro não iria parar, por equívoco, nas mãos dos verdugos, cujos gritos ferozes invadiam a corte e, por vezes, abafavam as vozes durante os julgamentos. Que obteve permissão e ficou no Tribunal do Sangue até o perigo cessar.
As tenebrosas cenas que o doutor presenciou ali, nos três dias em que mal comeu, e dormiu a intervalos irregulares, não serão descritas. A louca euforia que se apossou dos prisioneiros se sobreviveram espantou-o tanto quanto a louca ferocidade demonstrada contra os que foram esquartejados. Houve um prisioneiro, contou o doutor Manette, que restituído à liberdade, por um trágico engano foi apunhalado ao sair do cárcere. Chamado para cuidar do ferido, o doutor atravessou o mesmo portão e encontrou-o nos braços de um grupo de samaritanos sentados sobre os corpos de suas vitimas. Com uma incongruência tão monstruosa quanto tudo o mais nesse terrível pesadelo, eles o ajudavam a tratar do rapaz com uma gentil solicitude, improvisaram-lhe uma padiola e mandaram uma escolta retirá-lo dali com todo o cuidado. Então, tornaram a empunhar as armas e voltaram a dedicar-se a uma carnificina tão hedionda que o doutor cobriu os olhos com as mãos e desfaleceu no meio daquele horror.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta.
Capitulo IV. Calmaria em Meio à Tormenta

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