CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

OS PROJETOS

ELE DIZIA DE SI PARA SI, passeando num grande parque solitário: - "Que linda seria ela num traje cortesão, complicado e faustoso, descendo, mergulhada na atmosfera de um belo entardecer, os degraus de mármore de um palácio, diante dos grandes, relvados e dos tanques! Pois ela possui, de nascimento, o ar de uma princesa."

Mais tarde, passando por uma rua, parou ante uma loja de gravuras, e, encontrando num cartão a estampa de uma paisagem tropical, pensou: - "Não! não é num palácio que eu gostaria de desfrutar de sua cara vida. Nele, não estaríamos em nossa casa. Além disso, aquelas paredes crivadas de ouro não deixaram lugar para dependurar a sua imagem; naquelas galerias solenes não há recanto para a intimidade. Decididamente, é que seria bom morar para cultivar o sonho da minha vida."

E, sempre a analisar com os olhos pormenores da gravura, continuava mentalmente: - "À beira-mar, uma bela casa de madeira, envolvida por todas essas árvores estranhas e luzidias cujos nomes esqueci... na atmosfera, um odor inebriante, indefinível... na casa, um poderoso perfume de rosa e de almíscar... além, por trás do nosso pequeno domínio, topos de mastros balançados pelo marulho... em torno de nós, para além do quarto banhado de uma luz rósea tamisada pelos estores, decorado de frescas esteiras e de flores capitosas, com raros assentos de um rococó português, de madeira pesada e tenebrosa (onde ela repousaria tão calma, tão bem abanada, fumando tabaco levemente opiáceo!), para além da varanda, a algazarra dos pássaros ébrios de luz, e a tagarelice das negrinhas... e, durante a noite, para servir de acompanhamento aos meus sonhos, o canto plangente das árvores de música, dos melancólicos filaus! Sim, é lá, verdadeiramente, o cenário que eu procurava. Para que palácios!"

E adiante, caminhando por uma longa alameda, avistou um albergue asseadinhos, onde numa janela ataviada de cortinas de chita se debruçavam duas cabeças risonhas. E logo disse consigo: - "É preciso que o meu pensamento seja um grande vagabundo para ir buscar tão longe o que se acha tão perto de mim. O prazer e a felicidade estão no primeiro albergue que nos aparece, no albergue do acaso, tão fecundo em volúpia. Bom lume, faianças vistosas, ceia passável, vinho forte, e uma cama bem larga com lençóis meio grosseiros, mas frescos: que pode haver de melhor!"

E, reentrando sozinho em casa, a essa hora em que os conselhos da Sabedoria já não são abafados pelos zumbidos da vida exterior, disse ele entre si: - "Tive hoje, em sonho, três domicílios, onde encontrei igual prazer. Por que constranger o corpo a mudar de lugar, se a alma viaja tão célere? E de que serve executar projetos, se o projeto é em si mesmo um gozo suficiente?"

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