CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A BELA DOROTÉIA

O SOL CASTIGA a cidade com a sua luz vertical e terrível, a areia está ofuscante, e o mar espelha. Entorpecido, o mundo esmorece molemente e faz a sesta - sesta que é uma espécie de morte saborosa em que o adormecido, meio desperto, goza das volúpias do seu aniquilamento.

Entretanto Dorotéia, altiva e forte como o Sol, caminha na rua deserta, único ser vivo nesta hora sob o imenso azul, pondo sobre a luz uma brilhante mancha negra.

Caminha, balançando com indolência o torso tão fino sobre as ancas tão largas. Seu vestido de seda colante, de um tom róseo-claro, contrasta vivamente com as trevas de sua pele e molda-lhe com precisão o talhe esbelto, o dorso côncavo e o colo saliente.

Sou guarda-sol vermelho, filtrando a luz, projeta-lhe no rosto sombrio a maquiagem sangrante dos seus reflexos.

O peso da enorme cabeleira quase azul verga-lhe para trás a cabeça delicada, dando-lhe um ar triunfante e preguiçoso. Pesados brincos sussurram secretamente em suas minúsculas orelhas.

De quando em quando a brisa marítima lhe ergue a saia flutuante e mostra-lhe a perna resplandecente; e o pé, igual aos pés das deusas de mármore que a Europa encerra nos museus, imprime o seu molde fiel na areia fina. Pois Dorotéia é tão prodigiosamente faceira que o prazer de ser admirada supera o orgulho de já não ser escrava, e, embora livre, caminha descalça.

E ela prossegue assim, harmoniosamente, contente da vida, sorrindo um branco sorriso, como se divisasse ao longe, no espaço, um espelho a refletir-lhe o andar e a beleza.

À hora em que os próprios cães uivam de dor sob o Sol, que os morde, que poderoso motivo faz andar a preguiçosa Dorotéia, bela e fria como o bronze?

Por que deixou sua casinha tão galantemente arranjada, de que as flores e as estrelas fazem, com tão pouca despesa, uma perfeita alcova; onde ela sente tanto prazer em pintar-se, em fumar, em fazer-se abanar ou em mirar-se no espelho de seus grandes leques de plumas, enquanto o mar, que rola na praia a cem passos dali, faz às suas vagas fantasias um poderoso e monótono acompanhamento, e a marmita de ferro, onde se prepara um guisado de caranguejos com arroz e açafrão, lhe envia, do fundo da cozinha, seus perfumes excitantes?

Talvez tenha encontro marcado com algum jovem oficial que, em plagas longínquas, ouviu falar, por seus camaradas, na célebre Dorotéia. Com toda a certeza ela lhe pedirá, a simples criatura, que lhe descreva o baile da Opera, e lhe perguntará se é possível lá ir de pés descalços, como nas danças dominicais, em que até as velhas cafrinas ficam ébrias e furiosas de alegria; e depois, ainda, se as belas damas de Paris são todas mais bonitas do que ela.

Dorotéia é admirada e mimada por todos, e seria de todo feliz se não fosse obrigada a juntar piastra por piastra para resgatar sua irmãzinha, que tem precisamente onze anos e já está madura, e tão linda! Ela o conseguirá, sem dúvida, a bela Dorotéia: o senhor da menina é tão avarento, tão avarento, que não compreende outra beleza a não ser a dos escudos!

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