CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

CREPÚSCULO VESPERTINO

CAI A TARDE. Opera-se uma grande aquietação nos pobres espíritos extenuados do labor do dia; e seus pensamentos adquirem agora as cores suaves e indecisas do crepúsculo.

Entretanto, do alto da montanha chega ao meu balcão, através das nuvens transparentes do entardecer, um grande tudo, composto de uma multidão de gritos discordantes, que o espaço transforma em lúgubre harmonia, como a da maré que reponta ou de uma tempestade que desperta.

Quais são os desgraçados que a tarde não tranquiliza e que, iguais aos mochos, consideram o descer da noite como o indício de um sabá? Este sinistro ulular nos vem do negro hospício empoleirado na montanha; e pela tarde, fumando e contemplando o repouso do imenso vale, eriçado de casas cujas janelas dizem, uma por uma: - "Reina a paz aqui, agora; reina aqui a alegria da família!" - eu posso, quando o vento sopra lá de cima, acalentar o meu atônito pensamento com esta imitação das harmonias do Inferno.

O crepúsculo excita os loucos. Lembro-me de dois amigos meus que ficavam transformados ao baixar o crepúsculo. Um deles desconhecia, então todas as relações de amizade e polidez, e maltratava, como um selvagem frango, no qual imaginava enxergar não sei que insultante hieróglifo. O anoitecer, precursor das volúpias profundas, arruinava-lhe as coisas mais deliciosas.

O outro, um ambicioso malogrado, tornava-se, à medida que a tarde ia caindo, mais azedo, mais sombrio, mais pirracento. Indulgente e até sociável durante o dia, fazia-se implacável ao anoitecer; e não era apenas sobre os outros, mas também sobre ele mesmo, que se exercia a sua loucura crepuscular.

O primeiro morreu doido, incapaz de reconhecer a mulher e o filho, o segundo traz consigo a inquietação de um mal-estar perpétuo, e, penso eu, ainda que o agraciassem com todas as honrarias que podem conferir ardente de imaginárias inquietações. A noite, que lançava as suas trevas no espírito deles, ilumina o meu espírito; e, conquanto não seja raro ver a mesma causa produzir dois efeitos opostos, isso me deixa sempre como que intrigado e alarmado.

Crepúsculo, como sois doce e terno! Os róseos clarões que ainda se arrastam no horizonte como o agonizar do dia sob a opressão vitoriosa da noite, as luzes dos candelabros que põem manchas de um rubro opaco sobre as últimas glórias do ocaso, as pesadas tapeçarias que uma invisível mão atrai das profundezas do Oriente, imitam os complicados sentimentos que lutam no coração do homem nas horas solenes da vida.

Dir-se-iam, também, um desses estranhos vestidos de bailarina, em que uma gaze transparente e sombria deixa entrever amortecidos os esplendores de uma saia brilhante, como por sob o escuro presente se infiltra o delicioso passado; e as estrelas vacilantes de ouro e prata, de que ela é semeada, representam essas luzes da fantasia que só iluminam bem sob o luto fechado da Noite.

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