BOCCACCIO (1313-1375)

— Virtuosa senhora: tenho a convicção de que a senhora é inteligente, a ponto de haver podido, desde muito tempo, perceber quanto amor a sua beleza despertou no meu coração. A sua beleza, sem favor algum, supera a de qualquer outra mulher que jamais eu tenha visto. Deixo de lado os seus costumes louváveis e as suas virtudes singulares; tais costumes e tais virtudes teriam força bastante para prender e entusiasmar o ânimo de qualquer homem. Por isto, não é preciso que eu lhe demonstre, com palavras, que o meu amor tem sido o maior e o mais fervoroso que jamais homem algum nutriu por alguma mulher, e assim será sempre, enquanto a minha mísera vida sustentar estes membros; mais ainda: — se, do lado de lá da vida, se ama, como acontece do lado de cá, por toda a Eternidade eu amarei a senhora. Por esta razão, a senhora pode ter a certeza de que, de tudo quanto a senhora possui, seja de grande valor, seja de expressão humilde; nada é tão seu como eu sou, nem com coisa alguma poderá fazer tanto o que deseja, como comigo, enquanto eu for eu mesmo. A fim de que a senhora se convença disto, e tenha provas de que é verdade, digo-lhe que eu gostaria, e levaria à conta de grande graça de sua parte, que a senhora me ordenasse fazer fosse lá o que fosse, que lhe agradasse, e que estivesse ao meu alcance; se eu pudesse, e se eu estivesse no comando, faria com que o mundo inteiro imediatamente me obedecesse. Portanto, se sou eu, como sou e como a senhora ouve, não é imerecidamente que ouso apresentar os meus rogos à sua alteza, única fonte, com exclusão de qualquer outra, da qual a minha paz, o meu bem e a minha salvação poderão vir. Desta forma, como humílimo servidor, asseguro-lhe que a senhora é o meu grande bem e a única esperança da minha alma, que se nutre de amoroso fogo por esperar na senhora; e suplico-lhe para que a sua bondade seja tanta, e para que a sua passada dureza para comigo seja tão amolecida, a ponto de eu, reconfortado pela sua piedade, poder dizer que, assim como estou enamorado de sua beleza, assim também dessa bondade recebo a vida. Se aos meus rogos o seu ânimo altivo não for sensível, não há dúvida que a minha vida se extinguirá. Morrerei; e a senhora poderá ser considerada minha assassina. Deixemos de lado a circunstância de a minha não constituir honra alguma para a senhora; ainda assim, creio que, se alguma vez lhe doer a consciência, a senhora lamentará ter feito o que fez; e, talvez, um dia, mais bem disposta, de si para consigo mesmo dirá: — “Meu Deus! Que grande mal eu fiz por não manifestar misericórdia para com o meu Zima!” — Se este arrependimento não ocorrer, ainda assim sempre haverá motivo para lamentações; antes que isto aconteça, e agora que a senhora pode valer-me, procure compreender; antes que eu morra, tenha misericórdia de mim, está na senhora, e somente na senhora, o fazer, de mim, o mais feliz, ou o mais desgraçado, dos homens. Espero que a sua gentileza seja tanta a ponto de não lhe permitir que tolere que eu, por tanto amor, receba a morte como galardão. Acredito que, com uma agradável resposta, cheia de graça, a senhora reconfortará o meu espirito, que, apavorado, treme todo, à sua presença.

O DECAMERÃO
Terceira Jornada: Neifile
Quinta Novela: Elisa

Comentários