FLAUBERT (1821-1880)

- Por que, meu Deus, eu fui me casar?

Ela se perguntava se não teria havido meio, por outras combinações do acaso, de encontrar outro homem; e buscava imaginar quais teriam sido esses eventos não acontecidos, essa vida diferente, esse marido que ela não conhecia. Todos, afinal de contas, não se pareciam com aquele. Ele poderia ter sido belo, espirituoso, distinto, atraente, tais como eram, sem dúvida, aqueles com quem se casaram as suas antigas colegas do convento. Que faziam elas agora? Na cidade, com o barulho das ruas, o burburinho dos teatros e as claridades do baile, elas tinham existências em que o coração se dilata, em que os sentidos desabrocham. Mas ela, a sua vida era fria como um celeiro cuja lucarna dá para o note, e o tédio, aranha silenciosa, fiava a sua teia na sombra em todos os cantos do seu coração. Lembrava-se dos dias de distribuição de prêmios, em que ela subia ao palanque para ir buscar as coroinhas. Com os cabelos em tranças, vestido branco e sapatos de lã preta, tinha um jeito gentil, e os senhores, quando ela voltava ao seu lugar, inclinavam-se para dar-lhes parabéns; o pátio estava cheio de caleças, diziam-lhe adeus pelas janelinhas, o mestre de música passava cumprimentando, com o seu estojo de violino. Como estava longe tudo aquilo! Como estava longe!

MADAME BOVARY

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