STENDHAL (1783-1842)

Daí o sucesso do camponesinho Julien. Ela encontrou doces prazeres, com todo o encanto fulgurante da novidade, na simpatia daquela alma nobre e orgulhosa. A sra. de Rênal logo lhe perdoou a extrema ignorância, que era uma graça a mais, e a rudeza de suas maneiras, que ela veio a corrigir. Achou que valia a pena ouvi-lo mesmo quando se falava das coisas mais comuns, mesmo quando se tratava de um pobre cão atropelado, ao atravessar a rua, pela charrete de um camponês que ia a trote. O espetáculo dessa dor provocava o riso grosseiro do marido, enquanto ela via contrair-se as belas sobrancelhas pretas e bem arqueadas de Julien. A generosidade, a nobreza da alma, a humanidade pareciam-lhe aos poucos existir apenas no jovem padre. Apenas por ele sentiu a simpatia e até a admiração que tais virtudes despertam nas almas bem-nascidas.

Em Paris, a posição de Julien em relação à sra. de Rênal se simplificaria em pouco tempo; mas, em Paris, o amor é filho dos romances. O jovem preceptor e sua tímida patroa encontrariam em três ou quatro romances, e até nas canções do Ginásio Dramático, o esclarecimento da posição que ocupavam. Os romancos teriam indicado a ambos o papel a desempenhar, teriam mostrado o modelo a ser imitado, e a vaidade, cedo ou tarde, teria forçado Julien a seguir este modelo, ainda que sem nenhum prazer e talvez de má vontade.

O VERMELHO E O NEGRO

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