STENDHAL (1783-1842)

Sem que se dignasse a contar a ninguém, um acesso de febre de um dos filhos a deixava quase como se a criança tivesse morrido. Uma gargalhada grosseira, um dar de ombros acompanhado de alguma máxima trivial sobre a loucura das mulheres costumavam acolher as confidências desse tipo de sofrimento que ela fazia ao marido nos primeiros anos de casamento, levada pela necessidade de desabafar. Esse gênero de brincadeiras, sobretudo quando se tratava das doenças de seus filhos, revolvia o punhal no coração da sra. de Rênal. Foi o que encontrou no lugar das lisonjas solícitas e melífluas do convento jesuítico onde passara a mocidade. Sua educação se fizera pela dor. Orgulhosa demais para falar nesse tipo de desgosto, mesmo à sua amiga, a sra. Derville, imaginara que todos os homens fossem seu marido, o sr. Valenod e o subgovernador Charcor de Maugiron. A grosseria e a mais brutal insensibilidade a tudo o que não fosse interesse pecuniário, prerrogativas ou distinções, o ódio cego a todo raciocínio que os contrariasse, pareceram-lhe coisas naturais a esse sexo, assim como usar botas e chapéu de feltro.

O VERMELHO E O NEGRO

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