MIL E UMA NOITES

“Por Deus! Devolvei às minhas pálpebras o sono que as abandonou, e dizei-me por onde anda a minha razão.


Desde que eu consenti que o amor se alojasse em minha casa, o sono se aborreceu comigo e me esqueceu.”


Responderam-me: — “Que fizeste, nosso amigo, tu que nós considerávamos entre os que caminham pelo rumo direito e seguro? Dize-nos quem pode assim desviar-te.”


Eu disse-lhes: “Isso não é comigo: é ela quem vos esclarecerá! Eu vos responderei sempre que o meu sangue lhe pertence. Eu vos responderei sempre que prefiro sem hesitar derramá-lo por ela, a guardá-lo, pesado, em minhas veias!


Escolhi uma mulher para nela cultivar meus pensamentos, meus pensamentos que refletem sua própria imagem. Por isso, se expulsasse essa imagem, lançaria o fogo em minhas entranhas, o fogo devorador.


Vós, quando a virdes, me desculpareis, pois o próprio Alá fez esta jóia com o licor da vida; e, com o que restou daquele licor, a romã e as pérolas.”


Disseram-me: — “Achas realmente, ó ingênuo, em tua coisa amada, mais do que queixas, pranto, penas e raros prazeres? Não sabes que, se olhares a água límpida, não verás mais que o reflexo de ti mesmo? Tu bebes de uma fonte onde te sacias antes de poder saborear simplesmente.”


Respondi-lhes: — “Não acrediteis nunca que foi por ter bebido que a embriaguez me venceu, pois foi somente por olhá-la. E isto bastou para expulsar para sempre o sono dos meus olhos.


Não foram as coisas passadas que me abalaram assim, mas somente o passado com ela! Não foram as coisas amadas de que me separei que me puseram neste estado, mas somente a minha separação dela.


E agora, poderia eu voltar os meus olhos para outra? Eu, que tenho a alma totalmente presa ao seu corpo perfumado, ao aroma de âmbar e de almíscar de seu corpo?”

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