DICKENS (1812-1870)

Houve um murmúrio de comiseração e, quando Charles Darnay atravessou o salão até a porta rangente onde o aguardava o carcereiro, muitas vozes, das quais as suaves e compassivas vozes femininas era as mais conspícuas, desejaram-lhe boa sorte e coragem. Ele se voltou para agradecer, a porta se fechou com um rangido… e os fantasmas desapareceram de sua vista para sempre.

A porta se abria para uma escadaria de pedra que conduzia ao alto. Depois de subirem quarenta degraus (embora prisioneiro havia apenas meia hora, já contava os degraus), o carcereiro abriu uma porta baixa e negra, e eles entraram numa cela solitária. Embora fria e úmida, não era escura.
— É toda sua — declarou o carcereiro.
— Por que fui confinado em isolamento?
— Como vou saber?
— Posso comprar pena, tinta e papel?
— Não essas as minhas ordens. Irão visitá-lo e, então, poderá perguntar-lhes. No momento, só está autorizado a comprar comida, nada mais.
Na cela, havia uma cadeira, uma mesa e uma enxerga de palha. Enquanto o homem inspecionava cada uma dessas peças, ocorreu a Charles Darnay que aquele carcereiro era tão doentiamente deformado pelo inchaço, tanto no rosto quanto no resto do corpo, que mais parecia um afogado, intumescido pela água ingerida. Quando ele se foi, Darnay pensou: “Fui enterrado aqui como se houvesse morrido”. Baixou a cabeça para contemplar a enxerga e virou-se com uma súbita repulsa diante das larvas que arrastavam por entre a palha. “E aqui, nessas criaturas rastejantes, está o primeiro estágio da transformação do corpo após a morte”. 
— Cinco passos por quatro e meio, cinco passos por quatro e meio — o prisioneiro murmurou, traçando e retraçando as medidas do cubículo, enquanto, lá fora, os rugidos da cidade erguiam-se como o rufar de tambores misturado a uma onda de vozes selvagens.
— Ele fazia sapatos, fazia sapatos, fazia sapatos.
O prisioneiro tornou a medir a cela com seus passos, num ritmo mais acelerado, a fim de atordoar a mente a cada repetição.
— Os fantasmas desapareceram quando a porta se fechou. Havia um entre eles, sob a forma de uma dama vestida de negro, reclinada no peitoril de uma janela, sobre cujos cabelos dourados brilhava uma luz intensa, e ela se parecia com… Cavalguemos novamente, pelo amor de Deus, pelas aldeias iluminadas onde as pessoas não dormem!… ele fazia sapatos, fazia sapatos, fazia sapatos… Cinco passos por quatro e meio.
Com tais fragmentos girando e se arremessando das profundezas de seu espírito, o prisioneiro caminho mais depressa, e mais depressa ainda, obstinadamente contando e recontando. E o rugido na cidade mudou na medida em que, além do rufar dos tambores, agora havia também os lamentos das vozes que ele conhecia, no clamor que se elevava acima deles.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta.
Capitulo I. Em Segredo

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