DICKENS (1812-1870)

Sob a melancólica luz da prisão, seu novo hóspede seguiu-o pelo corredor e pela escadaria, as portas fechando-se com um clangor sinistro atrás deles, até alcançarem uma câmara ampla, de teto baixo e abobadado, apinhada de prisioneiros de ambos os sexos. As mulheres estavam sentadas a uma comprida mesa, lendo e escrevendo, tricotando, costurando e bordando; os homens, em sua maioria, ficavam de pé atrás das cadeiras, ou perambulavam de um lado para o outro na cela.

Instintivamente associando prisioneiros a crimes infames e opróbrios, o recém-chegado recuou. Todavia, culminando a irrealidade de sua irreal e longa jornada, todos se ergueram para recebê-lo com os mais requintados modos conhecidos na época, prodigalizando-lhe reverências e mesuras.
Tão estranhamente obnubilados eram esses refinamentos pela atmosfera sombria do cárcere, tão espectrais eles se tornavam na inadequada imundície e miséria através das quais eram vistos, que Charles Darnay teve a impressão de ter sido colocado em companhia dos mortos. Fantasmas, todos eles! O fantasma da beleza, o fantasma da grandeza, o fantasma da elegância, o do orgulho, o da frivolidade, o da graça, o da juventude e o da velhice, todos esperando sua libertação daquela desolada margem, todos volvendo para ele os olhos ensombreados pela morte que sofreram no instante em que entraram naquela prisão.
O choque paralisou-o. O carcereiro a seu lado, e os outros carcereiros que perambulavam por ali, apresentavam um aspecto que se harmonizaria perfeitamente com o exercício de suas funções, não fosse o contraste com as mães desesperadas e as viçosas filhas que lá estavam, como fantasmas da beleza jovem e coquete e do encanto maduro da maternidade, um contraste tão extravagante que levava a extremos a inversão de toda a experiência e probabilidade representada por aquele espetáculo de sombras. Por certo, fantasmas, todos eles! Por certo, durante a longa e irreal jornada, contraíra algum tipo de enfermidade que agora lhe provocava tais alucinações!

UM CONTO DE DUAS CIDADES
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta.
Capitulo I. Em Segredo 

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