DICKENS (1812-1870)

Charles Darnay apercebeu-se da inutilidade de pedir-lhe outros favores. Além disso, seu orgulho o impediria. Enquanto andavam, calados, ele observava o quanto as pessoas se haviam habituado com a presença de prisioneiros. Mesmo as crianças mal lhe prestavam atenção. Uns poucos transeuntes viraram a cabeça em sua direção, e alguns lhe apontavam o dedo, chamando-o de aristocrata. Um homem bem vestido a caminho da prisão era um fato tão corriqueiro quanto um homem comum a caminho do trabalho.

Numa rua estreita, escura e suja, um exaltado orador, que subira num tamborete, discursava para uma exaltada platéia acerca dos crimes perpretados contra o povo pelo rei e pela família real. As poucas palavras que captou de seus lábios levaram ao conhecimento de Charles Darnay que o rei estava na prisão e que os embaixadores estrangeiros haviam todos abandonado Paris. Na estrada (exceto em Beauvais), ele não ouvira coisa alguma a respeito. A escolta e a vigilância universal o haviam isolado por completo.
Que sua vinda o submetia a riscos muito maiores do que imaginara ao deixar a Inglaterra, ele agora sabia com certeza. Que os perigos o haviam cercado e apertariam o cerco ainda mais, também sabia com certeza, agora. Admitia que não teria empreendido aquela viagem se houvesse previsto o que lhe acontecera. Contudo, suas desconfianças ainda não era tão tenebrosas como deveriam, considerando-as sob a luz dos acontecimentos posteriores. Por incerto que lhe parecesse o futuro, este lhe era obviamente desconhecido e, em sua obscuridade, acenava com uma ingênua esperança. O terrível massacre, que durou dias e noites, e que, em poucos giros dos ponteiros dos relógios, marcaria com sangue a abençoada atenção da colheita, estava tão distante de sua imaginação como qualquer outro evento que só fosse ter lugar séculos mais tarde. A “fêmea afiada recentemente nascida, chamada La Guillotine”, só era conhecida dele, e da maioria das pessoas, por nome. Naquela época, suas pavorosas façanhas, que em breve seriam cometidas, provavelmente ainda nem haviam sido concebidas na mente de seus criadores. Como poderia uma alma gentil cogitar de tamanho horror?
Cativeiro, tratamento injusto, maus tratos, uma cruel separação de sua esposa e de sua filha, tudo isso ele julgava provável ou certo. Para além disso, entretanto, não se atrevia a prever nada. Com essa idéia em mente, que já era assustadora o bastante para se pensar num momento como aquele, Darnay chegou a La Force.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Terceira Parte. Os Caminhos da Tormenta.
Capitulo I. Em Segredo

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