DICKENS (1812-1870)

Ele sabia muito bem que, em sua abominação pelo ato que culminou em outros terríveis atos e granjeou uma péssima reputação para toda a família, em suas ressentidas suspeitas em relação ao tio, e na repugnância com a qual sua consciência encarava uma estrutura que desmoronava, mas que, no entanto, esperava-se que ele preservasse, não atuara de forma correta. Ele sabia muito bem que, em seu amor por Lucie, sua renúncia não fosse de forma algumma recente em seus pensamentos, se dera de forma apressada e incompleta. Sabia que devia ter sistematicamente dirigido e supervisionado o processo, e que até desejava fazê-lo porém jamais o fizera.

A felicidade que experimentava em seu adotivo lar inglês, a necessidade de trabalhar para garantir o próprio sustento, as mudanças aceleradas e os problemas que se sucediam com tanta rapidez que os eventos de uma semana anulavam os planos formulados na semana anterior, eram circunstâncias sob as quais, ele sabia bem, acabara cedendo, embora não sem inquietação, mas ainda sem uma contínua e acumulativa resistência à Inácia. Era verdade que aguardara a hora certa para agir, mas, na França, o povo se ergueu e lutou e a hora passou sem que a aproveitasse. A nobreza fugia em bandos da França por todas as estradas e atalhos, enquanto suas propriedades eram confiscadas e destruídas e seus nomes, enlameados. De tudo isso ele sabia, como decerto saberiam as novas autoridades francesas que tinham o poder de acusá-lo.
Contudo, não oprimira ninguém e a ninguém aprisionara. Em momento algum exigira que lhe pagassem seus direitos, dos quais abriu mão por livre e espontânea vontade para ingressar num mundo onde não contava com quaisquer privilégios e onde conquistou um espaço próprio e o pão de cada dia à custa de seu trabalho e esforço. Monsieur Gabelle havia mantido a empobrecida propriedade conforme as instruções que lhe deixava por escrito, sendo as quais devia poupar o povo e dar-lhe o pouco que houvesse para dar, coisas como lenha para o inverno que os credores lhes deixassem, e o que restasse da colheita, no verão, e, sem dúvida, cuidaria para que tudo fosse formalmente registrado, para a sua própria segurança, de forma que agora pudesse servir-lhe de defesa.
A carta favorecia a desesperada resolução para a qual Charles Darnay já se vinha inclinado. A de ir a Paris. 
Sim. Como aconteceu com o marinheiro da lenda, os ventos e as correntezas impeliam-no na direção da pedra-ímã, que o atraía inexoravelmente para o abismo. E para o abismo todas as reflexões que lhe assaltaram a mente arrastavam-no, com uma velocidade e uma força cada vez mais terríveis. A inquietação latente se devia ao fato de que objetos perversos se engendravam em sua própria e infeliz pátria através dos meios mais cruéis, enquanto ele, que não podia deixar de considerar-se melhor do que seus pares, não estava lá para tentar deter a carnificina e defender os clamores por misericórdia e humanidade. Com a inquietação a sufocá-lo e a acusá-lo, ele se viu conduzido àquela situação comparável ao do bravo marinheiro cujo senso de dever era tão intenso. Sob o efeito dessa comparação (que lhe era prejudicial), dera ouvidos ao sacarmos de monseigneur, que o aferroara dolorosamente, e ao de Stryver, que, mais do que os dos outros, fora grosseiro e irritante, por motivos muito antigos. Para culminar, havia a carta de Gabelle, prisioneiro inocente cuja vida estava em risco, que apelava para sua justiça, honra e bom nome.
Sua decisão estava tomada. Ele devia ir a Paris.
Sim. A pedra-ímã atraía-o e ele tinha de navegar até que o abismo o tragasse. Darnay não enxergava a pedra e vislumbrava quase nenhum risco. O intento que o levava a proceder como procedera, mesmo não havendo completado a tarefa, afigurava-se-lhe como um fato que mereceria o reconhecimento e a gratidão de seus compatriotas quando chegasse à França. Então, a gloriosa visão de praticar o bem, que frequentemente constitui a encorajadora miragem de tantas boas almas, formou-se diante dele, que se imaginou, em sua ilusão, dotado de alguma influência para guiar os caminhos da Revolução, a qual se perdia nos desvios da fúria, tornando-se a cada instante mais aterradoramente selvagem.

UM CONTO DE DUAS CIDADES
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo XXIV. Atraído pelo Abismo

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