CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

AS TENTAÇÕES
OU
EROS, PLUTO E A GLÓRIA

ESTA NOITE, dois soberbos Satãs e uma Diaba, não menos extraordinária, subiram a misteriosa escada pela qual o Inferno assalta a fraqueza do homem que dorme e se comunica secretamente com ele. Vieram pousar gloriosos diante de mim, de pé como sobre um estrado. Um esplendor sulfúreo emanava daqueles três personagens, que sobressaíam, assim, do fundo opaco da noite. Tão altivos pareciam, e tão cheios de domínio, que no primeiro instante eu os tornei, a todos três por verdadeiros deuses.

O semblante do primeiro Satã era de um sexo ambíguo, e havia nas linhas do seu corpo a molície dos antigos Bacos. Os belos olhos lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, assemelhavam-se a violetas carregadas, ainda, das pesadas lágrimas da tempestade, e os lábios entreabertos lembravam caçoulas quentes, donde se exalasse o bom olor de uma perfumaria; e, cada vez que ele suspirava, insetos almiscarados se acendiam, esvoaçando, aos ardores do seu hálito.

À roda de sua túnica de púrpura via-se enrolada, à guisa de cinto, uma serpente furta-cor, que, de cabeça erguida, volvia langorosamente para ele os olhos de brasa. Deste cinto vivo pendiam, alternando com frasquinhos cheios de licores sinistros, brilhantes cutelos e instrumentos cirúrgicos. Trazia na mão direita outro frasquinho, cujo conteúdo era de um vermelho luminoso, e em cujo rótulo se liam estas palavras extravagantes: "Bebei, este é o meu sangue, ótimo cordial"; à esquerda, um violino, que decerto lhe servia para cantar os seus prazeres e as suas dores, e para difundir o contágio da sua loucura nas noites de sabá.

Suspensos de seus delgados tornozelos, rojavam alguns anéis de uma cadeia de ouro partida; e quando, enfastiado com isso, baixava os olhos à Terra, vaidosamente contemplava as unhas dos pés, brilhantes e polidas como pedras bem trabalhadas.

Fitou-me com os seus olhos inconsolavelmente aflitos, donde manava insidiosa embriaguez, e disse-me me voz cantante:

- Se quiseres, se quiseres, eu te farei o soberano das almas, e tu serás o senhor da matéria viva, ainda mais do que o escultor o pode ser da argila; e conhecerás o prazer, ininterruptamente renovável, de sair de ti mesmo para te esqueceres em outrem, e de atrair as outras almas até confundi-las com a tua.

E eu lhe respondi:

- Muito obrigado! não tenho que fazer dessa pacotilha de seres que, sem dúvida, não valem mais do que o meu pobre eu. Embora sinta alguma vergonha em me lembrar, nada quero esquecer; e ainda que não te conhecesse, velho monstro, a tua misteriosa cutelaria, os teus frasquinhos equívocos, as cadeias que te agrilhoam os pés, são símbolos que explicam bem claro os inconvenientes da tua amizade. Guarda os teus donativos.

O segundo Satã não tinha nem aquele ar trágico e ao mesmo tempo sorridente, nem aquelas belas maneiras insinuantes, nem aquela beleza fina e perfumada. Era um homem vasto, de largo rosto sem olhos, pesada pança que descaía sobre as coxas, e pele toda dourada e ilustrada - como por uma tatuagem - de um sem-número de figurinhas movediças, que representavam as numerosas formas da miséria universal. Havia homenzinhos macilentos que voluntariamente se penduravam a um prego; havia gnomozinhos disformes, magros, cujos olhos suplicantes reclamavam a esmola mais ainda que as mãos trêmulas; depois, velhas mães com abortos aferrados às mamas exauridas. Havia, ainda, muitos outros assim.

O gordo Satã esmurrava o imenso ventre, donde saía um longo e ressoante retintim de metal, que terminava num vago gemido feito de numerosas vozes humanas. E ria, mostrando sem pudor os dentes estragados, um enorme riso imbecil, com certos homens de todos os países depois de um excelente jantar.

E disse-me:

- Eu posso te dar aquilo que obtém tudo, que vale tudo, que substitui tudo!

E bateu no ventre monstruoso, cujo eco sonoro fez o comentário da grosseira promessa.

Afastei-me desgostoso, e respondi:

- Não tenho necessidade, para meu prazer, da miséria de ninguém; e não quero uma riqueza entristecida, como um papel pintado, por todas as desgraças representadas na tua pele.

Quanto à Diana, eu mentiria se não confessasse que à primeira vista a achei estranhamente encantadora. Para definir tal encanto, não poderia compará-lo a nada melhor que ao dessas mulheres belíssimas já em declínio, que no entanto não envelhecem mais, e cuja beleza conserva a penetrante magia das ruínas. Tinha um ar ao mesmo tempo senhoril e desairoso, e seus olhos, pisados embora, continham uma força enfeitiçante. O que mais me tocou foi o mistério da sua voz, na qual eu revivia a lembrança dos contraltos mais deliciosos e também um pouco da rouquidão das gargantas sempre lavadas pela aguardente.

- Queres conhecer o meu poder? - perguntou a falsa deusa com a sua voz fascinante e paradoxal. - Escuta.

E embocou uma gigantesca trombeta, enfitada, que nem uma avena, com os títulos de todos os jornais do Universo, e através dessa trombeta gritou o meu nome, que rolou através do espaço com o fragor de cem mil trovões e voltou a mim repercutido pelo eco do mais longínquo planeta.

- Diabo! - disse eu, meio subjugado - não é que a coisa é preciosa?

Examinando, porém, com mais atenção a sedutora virago, pareceu-me vagamente reconhecê-la por a ter visto bebendo com alguns patifes das minhas relações; e o som rouco do cobre trouxe-me aos ouvidos não sei que lembrança de uma trombeta prostituída.

Eis por que respondi, com todo o meu desdém:

- Vai-te! Não fui feito para desposar a amante de certos indivíduos que não quero mencionar.

Sem dúvida eu tinha o direito de orgulhar-me de tão corajosa abnegação. Mas infelizmente acordei, e todas as minhas forças me abandonaram. - "Em verdade - disse comigo - era preciso que eu estivesse muito pesadamente entorpecido para manifestar-se semelhantes escrúpulos. Ah! se eles pudessem voltar enquanto estou desperto, não me faria de tão dedicado!"

E invoquei-os em alta voz, suplicando-lhes que me perdoassem, oferecendo-lhes o aviltar-me tantas vezes quantas fosse necessário para merecer os seus favores; mas decerto eu os irritara em alto grau, pois nunca mais voltaram.

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