CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

OS DONS DAS FADAS

REALIZAVA-SE uma grande assembléia das Fadas, para a distribuição dos dons por todos os recém-nascidos chegados à vida nas últimas vinte e quatro horas.

Essas antigas e caprichosas Irmãs do Destino, essas Mães estranhas da alegria da dor, eram todas muito diversas: umas tinham um ar sombrio e carrancudo; outras, um ar brincalhão e malicioso; umas, jovens, que sempre haviam sido jovens; outras, velhas, que sempre haviam sido velhas.

Todos os pais que acreditam nas Fadas encontravam-se ali, cada um trazendo nos braços o seu recém-nascido.

Os Dons, as Faculdades, os bons Acasos, as Circunstâncias invencíveis, estavam amontoados ao lado do tribunal, como os prêmios sobre o estrado, numa distribuição de prêmios. O que havia de particular, aqui, era que os Dons não representavam a recompensa de um esforço, mas, muito ao contrário, uma graça concedida àquele que ainda não vivera, uma graça que podia determinar-lhe o destino e tornar-se tanto a fonte de sua desgraça quanto de sua felicidade.

Andavam as pobres fadas numa roda-viva: grande era a multidão dos solicitadores, e o mundo intermediário, colocado entre o homem e Deus, está submetido, como nós, à lei terrível do Tempo e de sua infinita posteridade, os Dias, as Horas, os Minutos, os Segundos.

Em verdade, elas achavam-se aturdidas que nem ministros em dia de audiência, ou empregados do Montepio quando uma festa nacional autoriza os resgates gratuitos. Creio até que olhavam de vez em quando para o ponteiro do relógio com tanta importância como juízes humanos que, em sessão desde a manhã, não podem esquivar-se a pensar no jantar, na família e nos seus caros chinelos. Se na justiça sobrenatural há um pouco de precipitação e de acaso, não nos espantemos de que o mesmo aconteça por vezes com a justiça humana. Seríamos então, nós próprios, juízes injustos.

Daí terem sido praticadas nesse dia algumas leviandades, que se poderiam considerar extravagantes se fosse a prudência, e não o capricho, o caráter distintivo, eterno, das Fadas.

Assim, o poder de atrair magneticamente a fortuna foi adjudicado ao herdeiro único de uma família riquíssima, o qual, não sendo dotado de nenhum senso de caridade, nem de nenhuma cobiça dos bens mais visíveis da vida, depois se veria prodigiosamente embaraçado com os seus milhões.

Assim, foram doados o amor do Belo e do Poder poético ao filho de um sombrio indigente, cavouqueiro de profissão, que não podia, de modo algum, estimular as aptidões nem minorar as necessidades de sua deplorável progenitura.

Esqueceu-me dizer, nesses casos solenes, a distribuição é inapelável e nenhum dom pode ser recusado.

Todas as Fadas se iam levantando, julgando concluída a tarefa, pois já não restava nenhuma dádiva, nenhum mimo para lançar a toda aquela miuçalha humana, quando um pobre homem, um pequeno comerciante, suponho, se ergueu e, agarrando pelo vestido de vapores policromos a Fada que estava mais a seu alcance, exclamou:

- Que é isto, senhora? Esqueceu-nos? Falta ainda o meu pequeno! Não vim aqui para perder o tempo.

Tinha razão a Fada para achar-se em apuros! não restava nada. Lembrou-se, porém, a tempo, de uma lei bem conhecida, posto que raramente aplicada, no mundo sobrenatural, habitado por essas deidades impalpáveis, amigas do homem, e muitas vezes forçadas a se adaptarem às suas paixões, tais como as Fadas, os Gnomos, as Salamandras, as Sílfides, os Silfos, os Nixos, os Ondins e as Ondinas: refiro-me à lei que concede às Fadas, num caso desses, isto é, no caso de esgotamento dos quinhões, a faculdade de doar mais um, suplementar e excepcional, desde, porém, que tenham bastante imaginação para criá-lo sem demora.

Respondeu, pois, a boa Fada, com uma segurança digna do seu posto:

- Dou a teu filho... dou a teu filho... o dom de agradar!

- Mas agradar, como? agradar?... agradar, por quê? - perguntou obstinado o pobre negociante, que era decerto um desses argumentadores tão comuns, incapazes de se elevar até a lógica do Absurdo.

- Porque sim! porque sim! - replicou a Fada com irritação, voltando-lhe as costas.

E, tornando a juntar-se ao cortejo das suas companheiras, dizia-lhes:

- Que tal lhes parece esse francesinho vaidoso, que tudo quer compreender, e que, tendo obtido para o filho o melhor dos quinhões, ainda ousa interrogar e discutir o indiscutível?

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