CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O BRINQUEDO DO POBRE

QUERO DAR A IDEIA de uma distração inocente. Há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!

Quando sairdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pelas estradas, enchei os bolsos de pequeninas invenções de um soldo - tais como o polichinelo chato movido por um cordão, os ferreiros que batem na bigorna, o cavaleiro e seu cavalo cuja cauda é um apito - e pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e pobres que fordes encontrando. Então vereis os seus olhos crescerem, crescerem... A principio, não ousarão tocar no presente: duvidarão da própria felicidade. Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.

Numa estrada, por trás da grades de um vasto jardim, ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo batido de sol, via-se uma criança fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas.

O luxo, a ociosidade e o espetáculo habitual da riqueza tornam esses meninos tão belos que nos parecem terem sido feitos de outra massa que não a dos filhos da mediania ou da pobreza.

Ao lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão novo quanto o seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura, a coberto de plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com o seu brinquedo favorito, e eis o que ele observava:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em quem um olho imparcial descobriria a beleza, se, como o olho do entendido adivinha uma pintura ideal sob um verniz de carruagem, o limpasse da repugnante página da miséria.

Através daquelas vergas simbólicas, que separavam dois mundos, a estrada real e o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e este o examinava com avidez, como objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo, que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia, numa espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia, haviam tirado o brinquedo da própria Vida.

E as duas crianças riam uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.

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