FLAUBERT (1821-1880)

Havia no convento uma solteirona que vinha todos os meses, durante oito dias, trabalhar na lavanderia. Protegida pelo arcebispado como pertencente a uma antiga família de nobres arruinados pela Revolução, comia no refeitório à mesa das freiras e tinha com elas, depois da refeição, uma pequena conversa antes de voltar para o trabalho. Frequentemente as pensionistas escapavam do estudo para ir vê-la. Ela sabia de cor as canções galantes do século passado, que cantava a meia-voz, enquanto empurrava a agulha. Contava histórias, punha-as a par das novidades, encarregava-se de encomendas na cidade, e emprestava às maiores, às escondidas, algum romance que sempre tinha nos bolsos do avental, e de que a boa moça pessoalmente engolia longos capítulos, nos intervalos do trabalho. Eram só amores, namorados, namoradas, damas perseguidas a desmaiar em pavilhões solitários, mensageiros que são mortos em todas as paradas, cavalos que se esgotam em todas as páginas, florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, suspiros, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros bravos como leões, meigos como cordeiros, virtuosos a não mais poder, sempre bem-postos, e que choram como urnas. Durante seis meses, aos quinze anos, Emma suou as mãos nessa poeira dos velhos gabinetes de leitura. Com Walter Scott, mais tarde, apaixonou-se pelas coisas históricas, sonhou com baús, sala de guardas e menestréis. Teria gostado de viver em alguma velha mansão, como aquelas castelãs de longo corpete, que, sob o trevo das ogivas, passavam os seus dias, com o cotovelo sobre a pedra e o queixo na mão, a olhar vir do fundo da campanha um cavaleiro de pluma branca que galopa num cavalo negro. Teve, naquele tempo, um culto por Maria Stuart, e venerações entusiastas em relação a mulheres ilustres ou infortunadas. Joana d'Arc, Heloísa, Agnès Sorel, a bela Ferronnière e Clémence Isaure, para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui ou acolá, porém mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre eles, são Luís e o seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, um pouco de São Bartolomeu, o penacho do Béarnais, e sempre a lembrança dos pratos pintados em que Luís XIV era louvado.


MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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