STENDHAL (1783-1842)

As crianças o adoravam, ele não gostava deles; seu pensamento estava em outro lugar. Nada do que os pirralhos pudessem fazer o impacientava. Frio, justo, impassível e contudo amado, porque sua chegada de alguma forma expulsara o tédio da casa, foi um bom preceptor. Quanto a ele, sentia apenas ódio e horror à alta sociedade em que fora admitido, na cabeceira inferior da mesa, é bem verdade, o que talvez explique o ódio e o horror. Houve certos jantares de gala em que mal pôde conter o ódio a tudo o que o cercava. Num dia entre outros, o da festa de São Luís, o sr. Valenod monopolizava a conversa na casa do sr. de Rênal; Julien esteve a ponto de se trair. Fugiu para o jardim, a pretexto de ver as crianças. "Quantos elogios à probidade!", exclamou. "Parece até que é a única virtude; e, no entanto, que consideração, que respeito vil por um homem que evidentemente duplicou ou triplicou sua fortuna desde que passou a administrar o bem dos pobres! Aposto que tira proveito até do fundo destinado às crianças enjeitadas, esses pobres cuja miséria é ainda mais sagrada que a dos outros! Ah, monstros! Monstros! E eu também sou uma espécie de enjeitado, odiado por meu pai, por meus irmãos e por toda a minha família."

O VERMELHO E O NEGRO

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