O ESTRANGEIRO

ARTHUR DAPIEVE


Este ano minha mãe morreu. Não no ano passado, com certeza. Embora eu não seja um pied noir e nem tenha matado um arábe, estou condenado à morte, como todos os Mersaults que somos. Isso esclarece tudo, esta coluna inclusive. A última coluna do ano passado se chamou “Um balanço emocional para 1994”, um balanço que abarcava apenas e tão-somente as morte de Ayrton Senna e Kurt Cobain e a conquista do tetracampeonato.



Todo o resto era supérfluo, percalços de um ano como qualquer outro. Nos lembraremos de 1994 como o ano em que morreu o Senna, o ano em que Cobain deu um tiro nos cornos, o ano que Roberto Baggio perdeu um pênalti e assim nós ganhamos a Copa do Mundo pela quarta vez. Por nenhuma outra razão. Era um balanço pessoal, decerto. O deste ano é ainda mais pessoal. Não há, para mim, outro assunto possível. Este 1995 não será, na minha cabeça, o ano em que eu lancei o meu primeiro livro, o ano em que o Batafogo ganhou o seu primeiro campeonato brasileiro, o ano em que aconteceram, antes e depois de 22 de agosto, outras coisas boas e outras tantas coisas más, para mim, urbi et orbi. Não. Será sempre o ano em que minha mãe morreu. E o leitor com isso? Bem, se ele me lê é graças a ela, à sua luta centavo a centavo de Mallet Soares, de Oxford - o curso de inglês, não a universidade inglesa, óbvio - e de PUC. E suponho que ele tenha tido ou tenha mãe, suponho que ou ele saiba ou venha a saber do que estou escrevendo, embora a escrita não redima, não cure, não exorcize, não amenize chongas. Sim, todas as mães, mesmo as mais felizes, morrem um dia.

Vamos deixar logo uma coisa bem clara: eu não sou boiola. Já escuto as risotas pelas, hum, costas. “Hum, ele era ligadão na mãe, humm...” ou “Hum, já vi esse filme antes, Psicose.” Minha relação com minha mãe não se caracterizava por essa idolatria que certos gays tem por suas mães — e eles devem ter lá os motivos deles. Para dizer a verdade vivíamos meio às turras, distantes demais, fechados demais para nos entendermos realmente bem. Mas esta coluna também não é sobre arrependimento ou sentimento de culpa. Arrependimento de não ter dito ou feito isso ou aquilo, a palavra ou o gesto que depois diminuíram nossa dor. Esse arrependimento existe, sim, porém não se relaciona apenas aos mortos ou aos entes queridos. De qualquer forma, nada, palavra ou gesto, diminui a dor. Mesmo que você se prepare psicologicamente durante uma agonia de cinquenta e tantos dias em CTIs, mesmo que você quase se convença de que é preferível a morte, nada diminui a dor. É uuma porrada.

É uma porrada tão grande que não dá pra ficar indiferente como o Mersault do romance. O estrangeiro do franco-argelino Albert Camus. No primeiro parágrafo, curto, inesquecível, Mersault recebe um telegrama: “Sua mãe faleceu. Enterro: amanhã. Sentimos pêsames.” E pouco se importa, ou ao menos assim lhe parece num primeiro momento. A morte o reunirá à mãe. “Pela primeira vez em muito tempo pensei em mamãe”, se surpreende na cela, à espera do cumprimento da sentença.

Entretanto, pior que o arrependimento, o sentimento de culpa, a dor, a porrada, não necessariamente nessa ordem borgeana, é a sensação devastadora de solidão, solidão diante do mundo, aliás, uma sensação bem existencialista, mersault-camusiana. É como se, antes do acerto de contas com o Criador, tivéssemos de acertar contas com a nossa Criadora. A morte da mãe deve ser, com a possível exceção da morte de um filho (tóc, tóc, tóc), a coisa mais parecida com a própria morte que um ser humano pode experimentar em vida. É uma ponte que se queima. Estarei sendo piegas? Devo estar. Azar.

(Abro aqui um parênteses que nada e tudo tem a ver com o resto desta coluna. Durante muito tempo, fugi do “eu” — e mesmo do sujeito “eu” oculto — como o diabo da cruz. Tinha vergonha de escrever “eu acho isso”, “acredito naquilo", quem se importa. Até me tocar que essa timidez era meio desonestidade, meio falsa modéstia. Que digitar “eu” não significa, não necessariamente, entronizar o próprio umbigo. E que mesmo o umbigo pode ser socializado, pois todos temos um, assim como todos temos/tivemos mãe. Não dava mais para fingir que eu não estava aqui escrevendo e que alguém, nem que fosse eu mesmo, atrás de letras comidas e concordâncias erradas, estava aí lendo. Ninguém escreve para não ser lido, ninguém lê achando que o autor nasceu numa chocadeira.)

Sim, a solidão. É estranho imaginar que não há mais ninguém na face da Terra que esteja se preocupando se você está bem agasalhado ou se está se alimentando decentemente, isso para ficar nas coisas mais banais. É não poder nem dizer aquela frase-shazam! para os momentos em que o computador deu tilt ou você descobre um revival do personagem de Depois de horas: “Eu quero minha mãe!” Vais ficar querendo.

A gente aprende muito sobre a Humanidade nessa hora da morte também. Algumas pessoas, a maioria, felizmente, nos surpreendem favoravelmente. Ganhei solidariedade e carinho de onde pouco esperava, amigos, mãe de amigos, leitores desconhecidos. A todos estes, muito, muito obrigado. Outros, minoria, me falharam miseravelmente. A estes, não consigo perdoar, não consigo dar a outra face. E ainda tenho de estancar o sangue italiano a clamar por vendetta.

Estranho perceber que morta, dura e fria em cima da cama, minha mãe me deu uma derradeira lição de vida. Parafraseando um personagem de O caso Morel, de Rubem Fonseca, a morte da minha mãe me ensinou duas coisas: eu estou vivo; e isso não vai durar muito tempo.

Feliz 1996, apesar de mim.

Comentários