NOTURNO

CECÍLIA MEIRELES



Brumoso navio
o que me carrega
por um mar abstrato.
Que imagine alvedrio
prende à ideia cega
teu vago retrato?
A distante viagem
adormece a espuma
breve da palavra:
— máquina de aragem
que percorre a bruma
e o deserto lavra.

Ceras de mistério
selam cada poro
da vida entregada.
Em teu mar, no império
de exílio onde moro,
tudo é igual a nada.

Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? — bebo o horizonte…
Estrelas mais tristes.
Coração perdido.

Sonolentas velas
hoje dobraremos
— e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça.

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