ESSA MOCIDADE DE HOJE

MARCOS REY



Realmente não está fácil educar filhos hoje em dia. Não ouvem nossos conselhos e seguem caminhos estranhos, geralmente perigosos. Coisas do fim do século, explicam. Meu filho mais velho, por exemplo. Deu de cheirar. Não entendo onde pegou esse vício terrível. Acredito que foi na leitura de velhos romances portugueses, ele que é um apaixonado por primeiras edições.

Minha mulher o defende. Diz que não faz mal. Brigamos muito por causa disso. Um cunhado, médico, também assegura que não prejudica a saúde. É quando muito um mal social, insiste. Pode até ser, concordo, afinal milhares de jovens estão fazendo o mesmo em todo o mundo, mas quem aguenta uma pessoa espirrando o tempo todo? Até nas igrejas ele abre sua caixa (que não sei como se chama) e aspira o rapé. Tento proibir:



— Meu filho, você vive molhando os outros, pregando sustos, irritando. Abandone esse vício espalhafatoso, incômodo. Seria melhor fumar charuto.

Ele nem liga, sempre espirrando, em conduções, velórios, conferências, teatros, em toda parte. Não consegue se livrar desse pó maldito. É um dependente. Quando vai pedir emprego, para desinibir, cheira.

— Estou me apresentando para... atchim!

— O senhor está resfriado?

— Não — atchim, atchim, atchim etc.

Saí, claro, desempregado como entrou. Espirro não é forma de comunicação, não é argumento, não vale como currículo.

Apaixonou-se e foi pedir a mão da moça em casamento. Disseram-me que foram onze atchim consecutivos. Uns altos, outros baixos, uns fragmentados, outros explosivos, mas tudo muito monótono. O futuro sogro até que se conteve a princípio. Mas, quando o viu tirar automaticamente do bolso a caixa de rapé, perguntou:

— O senhor é viciado nisso?

— Sou — ele confessou de cabeça baixa.

E o sogro disse não.

Outro filho meu também está se desviando. Evita pais e parentes. Não gosta de estudar, de ler, mora no mundo da lua. Noite alta, salta a janela de casa e desaparece. Descobrimos isso e o forçamos a contar o que faz na rua até de madrugada. Negou-se peremptoriamente. Ameaçou até suicidar-se com gás se insistíssemos. Mas não recuamos e procuramos descobrir o que leva esse insensato dessa maneira.

— Para mim, tem música nisso — suspeitou a mãe.

— Música? É, pode ser — admiti. — Ele anda um tanto alheado.

Tinha razão. Descobrimos. O maroto anda fazendo serenata? Meu filho, seresteiro! Comprou um violão às escondidas! Agora vive fazendo barulho ao pé de janelas, nas madrugadas, despertando pessoas que precisam acordar cedo para o trabalho. E exposto alucinado ao sereno, à garoa, ao chuvisqueiro, que tão mal fazem aos pulmões. Muitos seresteiros, sabe-se, morrem de pneumonia, quando — eles que se cuidem — não são abatidos a tiros de garrucha por pais, irmãos e namorados das moças que pretendem agradar. Ou mesmo por vizinhos furiosos. As gazetas sempre trazem casos assim.

E por fim tem o menorzinho. Esse se viciou nessa tal de lanterna mágica. Conhecem, não? Chegou recentemente da Europa e está à venda nas lojas do centro. É um aparelho óptico que amplia e projeta imagens iluminadas. O menino fica numa sala escura com amiguinhos o dia inteiro vendo essas imagens. Jaulas de macacos, parques de diversões, trens, balões, banquetes, caras de reis e navios. Imagens coloridas que parecem ter dimensões e movimento. A impressão é que os garotos esquecem o lar, se afastam do mundo, rompem com a realidade. Podem imaginar uma coisa assim? O aparelho causa hipnose, fixação mórbida, idiotiza e talvez possa até cegar. Li que a laterna mágica, projetando cerca de dez imagens por minuto, acaba causando sérias perturbações no cérebro dos jovens, levando inclusive ao enlouquecimento. Sim, ao enlouquecimento.

Pó que vicia, ritmos anti-sociais, máquinas diabólicas. Caluda!

Este fim de século ameaça destruir nossos jovens.

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