DICKENS (1812-1870)

O mar de águas escuras e ameaçadoras, cujas ondas destruidoras se sucediam com fúria, cujas profundezas eram ainda insondáveis e cuja força era ainda desconhecida. O mar sem remorso de forma turbulentamente convulsionadas, de vozes que clamavam por vingança e de faces temperadas nas fornalhas do sofrimento até que o toque da piedade não mais pudesse marcá-las.

Contudo, no oceano de faces em que cada expressão feroz e furiosa se estampava em cores vivas, havia dois grupos de faces, com sete em cada um, tão fortemente contrastantes com as demais que nunca o mar revolto arrojou de suas águas restos mais memoráveis. Sete faces de prisioneiros, subitamente libertados pela tormenta que lhes arrombava o sepulcro, foram carregados nos ombros: todas amedrontadas, perdidas, perplexas e intrigadas, como se o Juízo Final houvesse chegado e aqueles que se regozijavam ao seu redor fossem espíritos extraviados. Outras sete faces havia, carregadas nos ombros, sete faces mortas, cujas pálpebras caídas e olhos semicerrados aguardavam o Juízo Final. Faces impassíveis que, entretanto, exibiam uma expressão não destruída, mas suspensa. Faces que pareciam estar numa terrível pausa, como se fossem levantar as pálpebras caídas e prestar testemunho com os lábios exangues: “Vós fizestes isso!”.

Sete prisioneiros libertados, sete ensangüentadas cabeças nos mastros, as chaves da amaldiçoada fortaleza das oito grande torres, algumas cartas descobertas e outras recordações de prisioneiros dos velhos tempos, havia muito, mortos de desespero, todas essas coisas, e outras da mesma natureza, os passos ressoantes de Santo Antônio escoltaram pelas ruas de Paris em meados de julho de 1789. Agora, que os céus derrotassem a fantasia de Lucie Darnay e mantivessem aqueles longínquos passos bem longe de sua vida! Pois ele são precipitados, ensandecidos e perigosos. E, tantos anos depois de um barril de vinho ter-se quebrado na porta da taberna de Defarge, eles não são tão fáceis de purificar, por se terem uma vez manchado de vermelho.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo XXI. Passos Ecoando

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