DICKENS (1812-1870)

Como já observamos, era um lugar prodigioso por seus ecos, aquela esquina onde o doutor vivia. Sempre ocupada enevolando o fio de ouro com o qual ligava seu marido, seu pai, ela própria, e sua velha governanta e companheira, a uma vida de serena felicidade, Lucie integrava-se na atmosfera de quietude dessa casa, naquela esquina tranquila e ressoante, ouvindo os passos dos anos ecoando.
A principio, embora ela fosse uma jovem esposa perfeitamente feliz, havia momentos em que seu trabalho tombava lentamente de suas mãos, e seus olhos se turvavam, pois havia alguma coisa chegando nos ecos, um leve rumor, muito longínquo, e ainda quase inaudível, que fazia seu coração confranger-se com uma angústia indefinível. Esperanças e dúvidas palpitantes, esperança de um amor como ela ainda não conhecera; dúvidas, de sua permanência na terra, para desfrutar dessa nova felicidade, travavam um conflito em seu íntimo. Entre esses ecos, então, distinguia o som de passos em seu jazigo precoce, e os pensamentos sobre a desolação e os lamentos do marido que seria deixado para trás lançavam-se sobre seus olhos, onde se quebravam como ondas.
O tempo passou, e sua pequena Lucie repousava em seu regaço. Então, em meio aos seus ecos que avançavam, havia os passos de seus pequeninos pés e o som de suas palavras balbuciadas. Por mais que ressoassem os maiores ecos, a jovem mãe ao lado do berço podia sempre ouvir aqueles passos miúdos se aproximando. Eles chegavam, e a casa nas sombras era iluminada com um riso de criança, e o Divino amigo das criancinhas, a quem, em sua aflição, ela havia confiado os entes queridos, parecia ter sua filha em Seus braços, da mesma forma que ele carregava os pequeninos de outros tempos, fazendo disso uma exultação sagrada para ela.
Sempre ocupada enevolando o fio de ouro que os mantinha a todos juntos, entretendo a sua benévola influência na trama de suas vidas, e concentrando nisso todas as suas forças, Lucie não ouviu durante anos senão ecos amigáveis e tranqüilizadores. Os passos de seu marido soavam fortes e prósperos no meio deles; também os de seu pai, firmes e regulares. Já a senhorita Pross, atrelada com tais cadeias, despertava novos ecos, como um indócil cavalo de batalha mantido sob chicote, relinchando e escavando o solo sob o plátano do jardim.
Mesmo quando havia sons lamentosos entre os demais, não havia nelas crueldade ou amargura. Mesmo quando cabelos dourados, como os seus próprios, jaziam como uma auréola no travesseiro, envolvendo o rosto abatido de um garotinho, que dizia, com um sorriso radiante: “Papai e mamãe, meus queridos, eu lamento muito ter de deixá-los, e à minha linda irmãzinha; mas estou sendo chamado, e devo partir!”, não eram lágrimas de agonia aquelas que molharam seu rosto de jovem mãe, como se soubesse que o espírito que abandonou os seus braços estivera ali apenas sob custódia. Sofreu por ele e não o impediu. Eles viram a face do Senhor. Oh! Pai, abençoadas palavras!
Então, o rumorejar das asas de um anjo veio a misturar-se com os outros ecos, que, assim, deixaram de ser apenas terrenos, passando a abrigar em seu seio algo de celestial. Os sussurros das brisas que sopravam sobre um pequeno sepulcro do jardim mesclaram-se com eles, e ambos eram ouvidos por Lucie, num silencioso murmúrio, como o ressonar de um mar de verão adormecido sobre as areias da praia, como também pela pequena Lucie, comicamente atenta às tarefas de manhã, ou vestindo uma boneca aos pés de sua mãe, tagarelando nos idiomas das duas cidades que estavam amalgamadas em sua vida.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo XXI. Passos Ecoando

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