CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O RELÓGIO

OS CHINESES vêem as horas nos olhos dos gatos.

Certo dia, um missionário, passeando no distrito de Nanquim, notou que havia esquecido o relógio e perguntou as horas a um rapazinho.

Ao primeiro instante, o garoto do Celeste hesitou; depois, pensando melhor, respondeu:

- Vou dizer.

Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando nos braços um gato muito gordo; e, fitando o animal, como se usa dizer, no branco do olho, afirmou sem hesitação:

- Ainda não é exatamente meio-dia.

E era verdade.

Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome tão adequado, aquela que é ao mesmo tempo a hora do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, - quer de noite, quer de dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo de seus olhos adoráveis vejo sempre, nitidamente, a hora, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como um olhar.

E, se algum importuno me viesse interromper enquanto o meu olhar repousa sobre este delicioso relógio, se algum Gênio descortês e intolerante, algum Demônio do contratempo me viesse dizer: - "Que é que estás a mirar com tamanha atenção? Que busca nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles a hora, mortal pródigo e vagabundo?" - eu responderia sem hesitar: - "Sim, vejo a hora: é a Eternidade."

Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente meritório e tão cheio de ênfase quanto vós mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esta preciosa galanteria que não vos pedirei nada em troca.

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