BOCCACCIO (1313-1375)

Após muitos outros louvores, Barnabé chegou ao ponto sobre o qual ali se conversava; afirmou, por todos os sacramentos, que não seria possível encontrar mulher mais honesta, nem mais casta, do que a sua. Por isto, ele acreditava, com absoluta certeza, que, se ele permanecesse fora de casa dez anos, ou por todo o sempre, ela nunca se entenderia amorosamente com outro homem.
Havia, entre estes mercadores que conversavam, um jovem mercador chamado Ambròsinho, de Piacenza; este moço começou a dar as maiores risadas do mundo, ao ouvir o último louvor que Barnabé fizera de sua esposa. Zombando, perguntou-lhe se o imperador lhe havia concedido tal privilégio, mais do que a quaisquer outros homens. Barnabé, um pouco perturbado, disse que não o imperador, e sim Deus, que podia um pouco mais do que o imperador, lhe havia concedido tal graça. Então, Ambròsinho disse:
— Barnabé: eu não duvido nada do que você acredita estar dizendo a verdade; mas, pelo que se me afigura, você tomou pouco em consideração a natureza das coisas. Se você a tomasse na devida conta, não seria preciso ter excesso de inteligência para entrar no conhecimento de circunstâncias que o levariam a falar com mais moderação sobre tais assuntos. E, para que você não pense que nós, que já falamos longamente, em relação à sua, quero conversar consigo, um pouco, sobre esta matéria. Verá você, então, que o que dissemos, dissemos movidos por uma compreensão natural. Sempre ouvi dizer que o homem é, entre os mortais, o mais nobre dos animais criados por Deus; vem depois dele a mulher. O homem, porém, como geralmente se crê, e se vê por suas obras, é mais perfeito. Tendo mais perfeição, deve ter, sem dúvida alguma, maior firmeza; e tem maior firmeza. As mulheres são universalmente mais instáveis; o motivo disso poderia ser demonstrado por via de muitas razões naturais, razões estas que pretendo deixar de lado. Se o homem é, pois, dotado de maior firmeza, e não se pode, ainda assim, exigir que ele deixe de condescender, já não dizemos a uma mulher que o suplique, mas até a uma mulher que lhe agrade e que ele renuncie a desejar; se, além de manifestar o desejo, ele se inclina a fazer o que se encontra ao seu alcance, para conseguir estar com a mulher a que aspirar; se isto lhe pode acontecer, não uma vez por mês, e sim mil vezes num dia; e se assim é, com o homem, que é que se deve desejar que uma mulher, que é naturalmente instável, seja capaz de fazer, em presença dos rogos, das lisonjas e de outros mil processos que venham a ser empregados por um homem esclarecido que a ame? Acredita você que a mulher consiga conter-se? Por certo, por mais que você o afirme, eu não acredito que nisso você creia. Você mesmo está convencido de que sua mulher é mulher, e de que ela é feita de carne e osso, como as outras. Assim sendo, ela deve ter os mesmos desejos das outras, e possuir as mesmas forças que as outras possuem, para resistir à tentação dos seus apetites naturais. É possível — embora ela seja honestíssima — que ela faça o que as outras fazem. Nada é mais difícil, de negar, do que isso, nem de afirmar, do que o contrário disso, como você faz.
A isto, Barnabé respondeu, dizendo:
— Eu sou mercador, e não filósofo; responderei, pois, como mercador; e digo que sei que isso que você diz pode acontecer às mulheres desassisadas, nas quais não existe vergonha alguma; as mulheres conscienciosas, porém, acusam tamanho cuidado para com a própria honra, que se tornam ainda mais fortes do que os homens, na defesa dessa mesma honra, de que os homens não se importam; desta maneira é feita a minha esposa.
Objetou Ambròsinho:
— Em verdade, se, de cada vez que a mulher se entrega a uma aventura, lhe nascesse um corno à fronte, para dar testemunho do que houvesse feito, creio que seriam poucas as mulheres que às aventuras se entregariam. Mas não só não nasce o corno, como até não se vê, nas mulheres que são prudentes, nem vestígio, nem pegada. A vergonha é a ruína da honra não se consubstanciam senão nos atos ostensivos. Por isto, quando elas podem, ocultamente precaveram; ou deixam de precaver, por desfeito. E fique você certo do que lhe digo: — que somente é casta a mulher que nunca foi solicitada, ou que, se alguma coisa a alguém solicitou, não foi por esse alguém atendida. Embora eu saiba que assim é, por motivo naturais e justificados, não falaria disso, com tanta clareza, como agora estou fazendo, se eu não tivesse feito a prova, muitas vezes, e com muitas mulheres. Afirmo-lhe que, se eu me encontrasse perto dessa sua santíssima esposa, acredito que em breve espaço de tempo a conduziria àquilo a que já conduzi várias outras.
Barnabé, perturbado, argumentou:
— O ato de discutir, com palavras, poderia estender-se em demasia; você diria; eu diria; e, afinal, a nada se chegaria. Mas uma vez que você assegura que todas as mulheres são assim acessíveis, e que o seu engenho é tão extraordinário, no sentido de fazer delas o bem que você entende, quero que você se certifique da honestidade de minha esposa. Estou disposto a permitir que me seja cortada a cabeça, se você algum dia conseguir induzi-la a um ato dessa ordem, que lhe agrade; se você não conseguir, não quero que você perca mais do que mil florins de ouro.
Ambròsinho, já com o espirito lançado à aventura, esclareceu:
— Não sei, Barnabé, o que eu faria do seu sangue, se vencesse; mas, se você tem vontade de ver a prova do que acabei de explicar, aposte cinco mil florins de ouro, dos seus, que devem ser-lhe menos caros do que a sua cabeça, contra mil dos meus. E, se você nenhuma objeção levanta, obrigar-me-ei a ir a Gênova; dentro de três meses, a contar do dia em que eu partir daqui, conseguirei que sua esposa faça a minha vontade. Como prova disso, comprometo-me a trazer, comigo, as coisas que lhe sejam mais caras; trarei testemunhos de tal ordem, e indícios de tamanha monta, que você mesmo confessará ser verdadeira a prevaricação de sua esposa; mas também é indispensável que você me prometa, por sua fé, que, em todo esse tempo, não viajará para Gênova, nem escreverá para ela coisa alguma sobre este assunto.

O DECAMERÃO
Segunda Jornada: Filomena
Nona Novela: Filomena 

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