BOCCACCIO (1313-1375)

O conde, cujo pensamento andava muito longe dos projetos da nora do rei, foi ter com ela, sem demora alguma. Como ela desejou, os dois se puseram sentados numa cama, numa sala, sem outra companhia. O conde já lhe havia perguntado, por duas vezes, quanto ao motivo pelo qual o mandara chamar. E ela continuava a calar-se. Por fim, impelida pelo amor, ela ficou toda vermelha de vergonha, sentiu-se trêmula e quase chorosa; e, com palavras hesitantes, assim começou a abrir-se:

— Meu caro e doce amigo, e senhor meu. O senhor sabe, como homem experimentado que é, até que ponto vai a fragilidade dos homens e das mulheres; sabe, também, que, por várias causas, essa fragilidade pode ser maior ora numa pessoa, ora noutra. Assim, diante de um juiz justo, o mesmo pecado, cometido por diversas qualidades de pessoas, não deve receber a mesma pena. E quem poderia dizer que não seriam muito mais merecedores de repreensão um homem pobre, ou uma mulher pobre, os quais tivessem de ganhar, com o próprio esforço, aquilo de que a sua vida precisasse, se fossem estimulados pelo amor, e se seguissem os ditames do amor, do que uma mulher bem rica e ociosa, à qual nada faltasse daquilo que pudesse satisfazer os seus desejos? Por certo, não creio que haja alguém que assim não pense. Por esta razão, acredito que grande atenuante a referida fragilidade deva representar, a favor da pessoa que a possui, se essa pessoa, por acaso, se deixa induzir a amar. Outra parte da escusa deve ser representada pelo fato de ela, a mulher, eleger um amante prudente e valoroso, se tem a certeza de o amar. Esta fragilidade e este fato, ao meu modo de ver, se encontram em mim; além destas duas coisas, outras há que me induziram a amar, devido à minha juventude e à ausência do meu marido. Assim sendo, convém que tais condições se coloquem a meu serviço, na defesa do meu ardoroso amor, aos seus olhos. Se tais circunstancias podem, perante o seu espirito, meu senhor, o que devem poder na presença dos homens esclarecidos, peço-lhe que me aconselhe e me ajude para aquilo que lhe vou expor. É verdade que, pela distância em que meu marido se encontra em relação a mim, eu não posso resistir aos estímulos da carne, nem à força do amor. Estes estímulos e esta força se animam de tamanha potência, que já muitas vezes venceram, e continuam a vencer, todos os dias, homens fortíssimos — e isto sem falarmos de frágeis mulheres. Eu vivo no conforto e no ócio em que o senhor me vê. Deixei-me levar aos prazeres do amor, e consenti em enamorar-me. Sei que isto, se fosse sabido por terceiros, não seria considerado honesto. Mesmo assim, como disto ninguém sabe nada, por ter sido feito às ocultas, parece que não se pode dizer que seja coisa desonesta. Contudo, o amor me foi generoso; não somente não me desviou do acerto, na eleição do meu amante, mas também me auxiliou muito ao mostrar-me que o senhor seria digno de ser amado por uma mulher de meu feitio. Se o meu espirito não me engana acho que o senhor é o mais belo, o mais agradável, o mais elegante e o mais esclarecido cavaleiro que, no reino da França, se possa encontrar. Assim como eu posso dizer que me vejo sem marido, assim também o senhor pode dizer que se vê sem mulher. Por esta razão, peço-lhe, por todo o amor que pelo senhor sinto, que não negue o seu amor a mim; tenha compreensão da minha juventude — desta juventude que pelo senhor se consome, como se consome o gelo perto do fogo.

Ao dizer a moça estas palavras, as lágrimas afloravam-lhe aos olhos, em grande abundância; embora ela pretendesse apresentar outros rogos, não o pode, devido ao pranto, que não lhe permitia prosseguir falando. Ele abaixou o rosto, e, quase vencida, sempre chorando, deixou-se cair sobre o peito do conde.

O conde era um belo cavaleiro. Com graves palavras, começou a censurar aquele amor tão insensato, e a repelir a mulher para trás, pois ela já se lhe ia enlaçando ao pescoço. Jurou o conde, por todos os sacramentos, que preferiria ser esquartejado, a perpetrar semelhante traição à honra do seu Senhor, ou a consentir em que tal traição fosse perpetrada por terceiros. Ao ouvir isto, a mulher esqueceu-se do amor. E, todavia de sincera fúria, de ilimitada indignação, disse:

— Pois então devo eu ser escarnecida no meu desejo, pelo senhor, e desta maneira? Pois a Deus não praza que eu o faça morrer, ou o mande eliminar deste mundo, uma vez que o senhor deseja fazer com que eu morra!

Assim dizendo, pôs as mãos nos cabelos, puxando-os e desarrumando-os todos; a seguir, levou as mãos ao peito; rasgou as próprias vestes; e começou a gritar, com o máximo de suas forças:

— Socorro! Socorro! O Conde de Antuérpia quer possuir-me a viva força!

O DECAMERÃO
Segunda Jornada: Filomena
Oitava Novela: Elisa

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