BOCCACCIO (1313-1375)

— Muito difícil se torna, amáveis mulheres, reconhecer aquilo que nos convém. Grande número de vezes se viu que muitos homens, achando que poderiam viver sem ansiedades e com segurança, desde que conquistassem riquezas, não somente imploram tais riquezas a Deus, mas também, sem medir fadiga, nem recear perigos, procuraram, com grande afinco, conquistá-las. Esses homens, depois de satisfazer as suas aspirações, encontraram quem os matasse. Os que os mataram por nada mais o fizeram do que por via de cobiça para com enormes heranças, e também por via da inveja com que, antes de se enriquecerem, amaram a vida que aqueles homens viviam. Outros homens, de baixa condição social, subiram à altura dos reinos, através de mil batalhas perigosas, e por meio do sangue tanto dos seus irmãos, como dos seus amigos. Acreditaram que nos reinos se encontrava a suprema felicidade, sem as infinitas preocupações e sem os intermináveis receios de que a própria vida anda sempre cheia. Mas ficaram sabendo, não sem sacrifício de morte deles mesmos, que, em pleno ouro, nas mesas reais, era veneno o que se bebia. Muita gente existiu, que desejou, ardorosamente, a força física, a beleza do corpo e vários outros predicados de ordem material. E não percebeu, antes, que havia desejado mal, por lhe poderem ser essas coisas causa de morte, ou, então, de vida dolorosa. A fim de que eu não tenha de falar, esmuiçadamente, de todas as ambições humanas, afirmo que não existe ambição alguma que, com pleno entendimento, possa ser escolhida pelos vivos, como sendo isenta de peripécias aventurosas. Se quiséssemos agir corretamente, deveríamos dispor-nos a só tomar e possuir aquilo que nos fosse dado por Aquele que é o único que sabe o que de que nós precisamos, e que no-lo pode proporcionar. Entretanto, os homens pecam desejando várias coisas, ao passo que vocês, graciosas mulheres, pecam infinitamente desejando uma só, isto é, desejando ser bonitas; não lhes bastando as belezas que a Natureza lhes concedeu, vocês procuram, com artes maravilhosas, acrescentar-lhes outras. Por isto, agrada-me contar-lhes quão infelizmente bela foi uma sarracena; à qual, em talvez quatro anos, aconteceu contrair novas núpcias por noves vezes.

O DECAMERÃO 
Segunda Jornada: Filomena. 
Sétima Novela: Pânfilo

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