ZANO

OTTO LARA RESENDE



I. Volte, Zano

Rio de Janeiro, 11/04/1992 — Ontem reunimos o conselho familiar. Devemos ainda ter esperança? Firme, disse eu que sim. Não me conformo. Por um momento, vi nos olhos de todos aquela cintilação. Metade fé, metade alívio. Ninguém quer se sentir culpado. Claro que tem de voltar. A menina me perguntou se era palpite ou intuição. Se era intuição pra valer, que eu jurasse. Tenho tradição no ramo. Com a ajuda de santo Antônio, já achei bicho e coisa que até Deus duvida.

Jurar, não juro. Questão de princípio. Mas quer crer que volte. Pode ser wihful thinking. Que seja. De repente, reaparece. Já apareceu duas vezes. Minha filha chamou-o ao jeito dela, gritou, modulou a voz com carinho — e ei-lo em pessoa. Espantadíssimo, coitado. Aproximou-se tímido, desconfiado. E lhe caiu nos braços. Guardou absoluto silêncio, como se temesse qualquer manifestação sonora. Graças a Deus, são e salvo.


Quando cheguei à noite, estava em cima do carro. Como estátua. Ameaçou fugir, os magoados olhos azuis, belíssimos. Depois identificou o amigo e chegou pra perto. O ambiente estranho o intimidava. Mais vinte e quatro ou quarenta e oito horas e se sentiria em casa. Iria na certa desarmar aquela atitude de suspeita. Não quis comer, nem beber. É assim mesmo, disse o especialista que consultamos. Será que some de novo? Expliquei ao conselho familiar o que é etologia. Citei Konrard Lorenz. A noção do território. Podíamos dormir em paz.

Na manhã seguinte, pânico geral. Não adiantou chamar, nem gritar. O conselho se ampliou e cada qual tinha uma opinião. Uma única inaceitável. Crudelíssima: tinha sido apanhado e comido. Sim, senhor. Estão comendo muito gato neste Rio de Janeiro. Não é gato por lebre, não. Gato mesmo. Até siamês, como o Zano. Tão bonzinho, tão bonito - a hipótese é absurda. Verdadeira blasfêmia. Aos onze anos, não é bobo. Já conhece o novo endereço e volta. Claro que volta.

Foi batizado Zeno, como o personagem de Italo Svevo. Na língua infantil, virou Zano, Zaném, Zaninho. Inteligentíssimo, elegantérrimo, a esta altura não vai sair por esse mundo hostil afora. Virar riponga, essa não. Tem aqui afeto, calor humano. Comidinha e ração. O que quiser. A ansiedade aumenta à medida que passa o tempo. Já é o terceiro dia do sumiço. A rua tem uma cachorrada danada, mas e daí? Ele sabe se defender dos perigos desta vida. O fato é que aqui em casa não se toma conhecimento do novo ministério, nem do Brasil, enquanto o Zano não aparecer.

2. Fuga do borralho

Gato e velho não devem mudar de casa, dizia minha mãe. O ideal, aliás, é nascer, viver e morrer na mesma casa. Mudança é quase sempre aflição de espírito. Até porque mudança mesmo, daquele tipo evangélico, que mata o velho e abre espaço ao homem novo, esta pouquíssimos fazem. Mudança de hábito, qualquer uma, é um transtorno. Já contei aqui o que aconteceu com o Zano. Ou Zeno, como foi batizado.

O Zano é um caráter forte, ao contrário do personagem do Italo Svevo, que tinha consciência, mas era um fraco de vontade. Prometia parar de fumar e não parava. Há quem diga que de vez em quando me dá um acesso de auto-referência. Aquele professor até me acusou de não despregar os olhos do meu umbigo. Com franqueza, não me acho assim tão auto-referente. Podia ser muito mais. E se não sou é porque me policio.

No caso do Zano, me impressionou o número de pessoas que se interessaram pelo seu destino. Recebi telegramas, cartas e telefonemas. Só um sujeito mal-humorado é que me perguntou se não tenho vergonha de me preocupar com um gato, quando há tanta criança na miséria. Olhe a lógica, meu amigo. Interesse por um gato não implica descaso pelas crianças. Pelo contrário.

O Zano já apareceu em sonho e duas vezes surgiu em pessoa. Alucinação? Talvez. Quem sustenta que todos os gatos siameses se parecem é porque não conhece o Zano. Sonho e alucinação à parte, ainda temos esperança. A Luciana sabe de um gato que voltou diante quinze dias depois. Houve um outro que ficou sumido mais de um mês. E reapareceu. Afinal onze anos de Zano são quase uma vida. Pelo menos vida de felino.

Bicho por excelência literário, o gato tem sido o mais fiel companheiro dos escritores. A Collette acabou com cara de gato. O Guimarães Rosa conversava com os seus angorás. O da Clarisse Lispector a confortava nos momentos de angústia. Perguntem ao Sérgio Augusto se ele se separa dos seus. Pelo seu Gaspar, a Ana Miranda paga qualquer resgate. Enfim, com o sumiço do Zano, só me resta também sumir. A partir de hoje, tomo sumiço. Bem substituído aqui na Folha, vou ver o Brasil de longe. Mas volta logo. Descanso eu e descansam os leitores. Em todo caso, espero fazer falta. Não tanta quanto o Zano. Mas pensem em mim.

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