FIELDING (1707-1754)

Quão vil e desprezível, quão destituída da dignidade de espírito e do orgulho decente, sem os quais não somos dignos do nome de criaturas humanas, será a mulher que consentir em nivelar-se aos mais baixos animais, e em sacrificar quanto há nela de grande e de nobre, quanto há nela de celestial, a um apetite que tem em comum com os ramos mais vis da criação! Pois mulher nenhuma alegará, por certo, como escusa, a paixão do amor. Isso fora confessar-se mero instrumento e joguete do homem. O amor, por mais barbaramente que lhe possamos corromper e perverter o significado, assim como é uma paixão louvável, é também uma paixão racional, e nunca pode ser violento quando é recíproco; pois, embora a Escritura nos ordene que amemos aos inimigos, não se refere ao fervoroso amor que naturalmente consagramos aos amigos; e muito menos pretende que lhes sacrifiquemos a vida, e, o que nos devia ser ainda mais caro, a inocência. Ora, sob que aspecto, senão sob o de um inimigo, pode uma mulher sensata considerar o homem que lhe pede que aceite toda a miséria que vos descrevi, e é capaz de proporcionar a si mesmo um prazer breve, trivial e desprezível à custa de tamanho detrimento dela? Pois, segundo as leis consuetudinárias, toda a vergonha, com as suas terríveis consequências, recairá inteiramente sobre ela. Poderá o amor, que sempre busca o bem do seu objeto, induzir atraiçoadamente uma mulher a fazer alguma coisa sem que ela tem tanto a perder? Consequentemente, se um desses corruptores tivesse a impudência de simular uma afeição verdadeira, não deveria a mulher considerá-lo não só como inimigo, senão como o pior de todos os inimigos, um falso, traiçoeiro, aleivoso e pretenso amigo, que leva a mira em depravar-lhe corpo e espírito ao mesmo tempo?

TOM JONES
LIVRO PRIMEIRO
CAPÍTULO VII
Em que se contém assunto tão grave que o leitor não poderá rir uma vez sequer durante todo o capítulo, a menos que se ria, acaso, do autor
Palavras do Sr. Allworthy

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