FLAUBERT (1821-1880)

Até agora, que tinha ele tido de bom na existência? Seria o tempo de colégio, onde ficava encerrado entre aqueles muros altos, sozinho no meio dos colegas mais ricos ou mais fortes do que ele em suas classes, que ele fazia rir por seu sotaque, que zombavam de suas roupas, e cujas mães vinham ao parlatório com doces no regalo? Seria mais tarde, quando estava estudando medicina e nunca tinha a bolsa bastante recheada para pagar a contradança a alguma operariazinha que se tivesse tornado sua amante? Em seguida, tinha vivido catorze meses com a viúva, cujos pés, na cama, eram frios como gelo. Mas, agora, possuía pelo resto da vida essa bela mulher a quem adorava. O universo, para ele, não ia além das bordas sedosas da saia dela; e se recriminava por não amá-la, tinha vontade de revê-la; voltava depressa, subia as escadas, com o coração batendo. Emma, em seu quarto, estava fazendo a sua toalete; ele chegava com passos mudos, beijava-a nas costas, ela soltava um grito.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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