JORGE DE LIMA (1895-1953)

Naquela tarde
o rosto infante,
sonho acordado,
bastava apenas
respiração
que do seu hálito
o ar se fazia,
com a estrela Vésper
antes da hora
da Ave-Maria:
ar coagulado
formando a igreja,
ar rarefeito,
a serra ao longe,
ar enterrado,
velho sobrado
onde nasceu.
No céu translúcido
gorro voando,
gavião morto,
mundo de infância,
flauta distante
e um som perdido
como um sonâmbulo
cortando a tarde
de leste a oeste.
Menino lobo
entra pra casa
antes que a asma
retire o sopro
do teu pulmão.
Teus companheiros
correm brincando;
tu sufocado
dosando o ar,
criando as coisas
com o ar da tarde.
Teu pensamento
correndo adiante
das andorinhas.
Há um som perdido
como um sonâmbulo
cortando a tarde
de leste a oeste.
Menino doente
entra pra casa
antes que a asma
roube o teu sopro,
teu pensamento
correndo adiante
das andorinhas,
pela amplidão.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

Comentários