JORGE DE LIMA (1895-1953)

MIRA-CELI E O HERÓI

Meus pés estão fincados na terra;
mas as mãos esvoaçam como duas asas de sombra,
como duas defuntas mal-assombradas.
Minhas pernas estão fincadas na terra;
mas os braços tem ruídos cavos:
(de cada lado inscreveram datas sobre números cruzados).
Os joelhos estão fincados na terra;
mas acotovelo os que me empurram
à beira do túnel baixo, muito bem caiado.
Esta estocada de lado corresponde
à tua mão pousada ao meu ombro, pesada, pesada.
Sei que vais enterrar-me, Senhor,
pois meus lábios já se esfarelam sobre os meus dentes fincados na terra, fincados na terra.
Nesta escuridão há raízes amargas e insetos que nunca vi;
mas o verbo, que me infundiste, estremece a montanha
em que sepultaram meus ossos.
Sinto que vou renascer como uma larva tonta para a Tua Luz.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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