DICKENS (1812-1870)

Enquanto madame Defarge e monsieur seu marido regressavam amistosamente ao coração de Santo Antônio, uma mancha com um barrete azul se movia por entre as sombras e pela poeira, descendo as intermináveis alamedas na beira da estrada, lentamente rumando para o ponto em que o castelo de monsieur marquês, agora em seu túmulo, ouvia as árvores farfalhantes. Tão vastas horas possuíam as faces pétreas para escutar as árvores e a fonte que os poucos espantalhos da aldeia que, em busca de ervas para comer e pedaços de lenha para queimar, extraviaram-se na direção do castelo e se viam diante do grande pátio e da escadaria de pedra, julgavam perceber, em seu desvario de fome, que as faces se haviam alterado. Acabara de correr no vilarejo o rumor, que teve ali uma vida tão débil e curta quanto a dos aldeões, de que, quando a faca matou o dono do castelo, a expressão daquelas faces deixou de ostentar orgulho para mostrar raiva e dor. Também se dizia que, no dia em que o infeliz fora pendurado na forca de doze metros de altura erguida ao lado da fonte, sua expressão tornara a mudar, passando a exibir, desse momento em diante, um ar cruel de vingança cumprida. Na pétrea face sobre a grande janela do aposento onde o assassinato fora perpretado, percebiam-se duas rugas profundas que lhe sulcavam o nariz, as quais, até então, ninguém havia notado; e, nas raras ocasiões em que dois ou três camponeses maltrapilhos emergiam da multidão para espiar apressadamente o rosto petrificado de monsieur marquês, estes logo fugiam espavoridos por entre as folhas e o musgo, como as lebres mais afortunadas que conseguiam viver ali, e tão rápido que um dedo descarnado não lhes teria apertado na direção por um minuto sequer.

Castelos e cabanas, pétreas máscaras e esqueleto de enforcado, manchas de sangue nas pedras do chão, água pura do poço da aldeia, milhares de acres de terra, toda uma província da França, a própria França, jaziam sob o céu noturno, condensados numa única e frágil linha. Assim o mundo inteiro, com sua grandeza e insignificância, jaz numa estrela tremeluzente. Do mesmo modo como o simples conhecimento humano é capaz de decompor um raio de luz e analisar-lhe a estrutura, assim também as inteligências mais sublimes podem ler, no flébil cintilar desta nossa Terra, cada pensamento e ato, cada vício e virtude de cada criatura que o concebeu.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo XVI. Madame Defarge Continua a Tricotar

Comentários