DICKENS (1812-1870)

Uma linda paisagem, onde o trigo refulgia, embora pouco abundante. Leiras de centeio de qualidade inferior onde o trigo deveria estar, leiras dos vegetais mais ordinários em substituição ao trigo. Numa natureza tão enfermiça quanto os homens e mulheres que a cultivavam, prevalecia a tendência ao aparecimento de uma vegetação relutante, com uma desalentada tendência para brotar, e murchar logo em seguida.

Monsieur marquês, em seu coche de viagem (que deveria ser mais leve) puxado por quatro cavalos e conduzido por dois postilhões, subia penosamente uma colina escarpada. O rubor no semblante de monsieur marquês não desacreditava sua fina educação, pois não vinha de dentro, mas era causada por uma circunstância externa, fora de seu controle: o sol poente.

O crepúsculo invadia tão brilhantemente o coche de viagem quando este chegou ao topo da colina que seu ocupante estava banhado de carmim.

— Ele se extinguirá — murmurou monsieur marquês, lançando os olhos para as mãos — rapidamente.
Com efeito, sol afundava no horizonte. Quando a pesada trava foi ajustada às rodas e o coche começou a deslizar morro abaixo, com um odor de queimado e envolto numa nuvem de poeira, o brilho carmesim rapidamente desapareceu. O sol e o marquês desceram juntos, e já não havia mais brilho atrás dele quando a trava foi retirada.

Contudo, ainda restava no cenário uma terra arruinada, aberta e nua, uma pequena aldeia no sopé da colina, uma subida em curva ampla além dela, uma torre de igreja, um moinho, um bosque para as caçadas e um penhasco onde havia uma fortaleza utilizada como prisão. Do alto da colina, enquanto a noite traçava os seus contornos sombrios, o marquês contemplava tudo com ar de quem se aproximava do lar.

O vilarejo possuía uma única e pobre rua, onde havia uma pobre cervejaria, um pobre curtume, uma pobre taberna, uma pobre cocheira para troca de cavalos, uma pobre fonte e todos os pobres petrechos usuais. Possuía pobres habitantes, também. Todos os seus habitantes eram pobres e alguns deles estavam sentados à porta, cortando sobras de cebola e coisas do gênero para o jantar, enquanto outros estavam na fonte, lavando folhas e ervas, e alguns pequenos frutos silvestres comestíveis. Sinais visíveis do que os empobrecia não faltavam. Impostos para o Estado, dízimos para a Igreja, tribunais para o senhor, contribuições locais e contribuições gerais deviam ser pagos a todo o momento, de acordo com os solenes editais ali fixados, de forma que era de se espantar que o vilarejo ainda não tivesse sido consumido por tão vorages impostos.

Viam-se poucas crianças e nenhum cachorro. Quanto aos homens e mulheres, suas alternativas no mundo resumiam-se à vida no padrão mais baixo de subsistência na pequena aldeia sob o mundo, ou cativeiro e morte na prisão do penhasco.

UM CONTO DE DUAS CIDADES
 Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo VIII. O Marquês no Campo

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