DICKENS (1812-1870)

De fato, os aposentos, embora surgissem aos olhos como um belo cenário, adornado com todos os detalhes de decoração que o bom gosto e a habilidade da época podiam oferecer, eram, na verdade, algo que carecia de solidez. Confrontados com os espantalhos trajados com farrapos e barretes de algodão habitando alhures (e não tão distante dali, já que das torres de observação de Notre-Dame, quase equidistantes dos dois extremos, podiam ambos ser avistados), a situação mostrar-se-ia extremamente desconfortável, se alguém se desse ao trabalho de estabelecer tal contraste na casa de sua excelência. Oficiais do exército destituídos de conhecimentos militares, oficiais da marinha que nada sabiam a respeito de navios, oficias civis sem nenhuma noção acerca de suas atribuições, eclesiásticos impudentes, que adotavam os mais dissolutos hábitos mundanos, de olhos sensuais, línguas soltas e vidas dissipadas, todos tão inadequados para suas respectivas atividades, todos mentindo desavergonhadamente, fingindo ser o que não eram, mas todos direta ou indiretamente da casta de sua excelência, e, portanto, introduzidos sub-repticiamente em todos os cargos públicos dos quais se podia tirar algum proveito. Não eram menos abundantes as pessoas sem ligação imediata com sua excelência ou com o Estado, embora igualmente sem ligações com qualquer coisa que fosse real, ou cujas vidas eram passadas em viagens por estradas que conduziam diretamente a lugar algum. Médicos que acumularam grandes fortunas receitando remédios de sabor delicado para doenças que jamais existiram sorriam para seus pacientes cortesões nas antecâmaras de sua excelência. Planejadores que haviam descoberto todos os tipos de remédios para exorcizar os pequenos demônios que se apossavam do Estado, exceto o remédio de trabalhar honestamente para erradicar um único pecado, derramavam sua espantosa tagarelice nos ouvidos que conseguissem atrair na recepção de sua excelência. Filósofos incrédulos, que reformavam o mundo com palavras, erguendo torres de Babel com cartas de baralho para alcançarem os céus, conversavam com químicos incrédulos que tinham um olho na transmutação de metais nesse fantástico agrupamento em torno de sua excelência. Cavalheiros requintados, da mais fina educação, que viriam a ser conhecidos, nessa época memorável — e tem sido desde então —, pelos frutos de sua indiferença em relação a todo tema de interesse humano, desfilavam o seu mais característico estado de desfastio pelos salões de sua excelência. Lares tão bem constituídos estas várias notabilidades deixavam para trás no elegante círculo de Paris, que os espiões em meio à assembléia de devotados de Monsegneur — formando uma boa metade dessa polida companhia — encontrariam dificuldade em descobrir entre os anjos dessa esfera uma única esposa que, por suas maneiras e aparência, denunciasse a sua condição de mãe. Realmente, exceto pelo simples ato de trazer uma enfadonha criatura para este mundo, o que sequer se aproxima da realização do nome de mãe, essa situação não era prevista pela moda. As mulheres da aldeia mantinham consigo estes bebês fora de moda e os criavam, e charmosas avós de sessenta anos vestiam-se e recebiam como jovens de vinte.

A lepra da irrealidade desfigurava cada ser humano nas salas de espera de sua excelência. No salão mais afastado encontrava-se meia dúzia de pessoas excepcionais, que haviam acalentado, durante alguns anos, um vago receio de que as coisas em geral estivessem dando errado. Como uma forma promissora de consertá-las, alguns deles — metade dessa meia dúzia — tornaram-se membros de uma fantástica seita de convulsionários, e ponderavam, mesmo ali, sobre a conveniência de espumarem, atirarem-se ao chão, urrarem e sofrerem ataques epilépticos, estabelecendo, desse modo, uma inteligível baliza para o futuro, para orientação de Monsigneur. Além desses dervixes, havia outros três que ingressaram em outra seita, que visava a resolver a situação com um jargão sobre “o Centro da Verdade”, sustentando que o Homem saíra do Centro da Verdade — o que não carecia de muita demonstração — mas não escapara da Circunferência, por isso era preciso evitar que escapasse, sendo mesmo necessário empurrá-lo de volta para o Centro, por meio de jejum e do contato com os espíritos. Em conseqüência, os membros desse grupo travavam muitos diálogos com os espíritos, resultando em tremendos benefícios que entretanto jamais se manifestaram.
Contudo, havia o consolo de que todos os visitantes do palácio de sua excelência apresentavam-se bem trajados. Se ficasse estabelecido que o dia do juízo final seria o dia do julgamento da elegância, todos ali estariam preparados para a eternidade. Tantos cabelos frisados, empoados e armados, tantas cútis artificialmente corrigidas e preservadas, tantas espadas valentes e tanta delicadeza para com o olfato, certamente manteriam o bom andamento de qualquer coisa, para todo o sempre. Os cavalheiros requintados, da mais fina educação, traziam dependurados pequenos berloques que tilintavam quando eles se moviam languidamente. Aqueles grilhões dourados repicados como preciosos sininhos, e, com esse repenique, com o farfalhar da seda, do brocado e do mais delicado linho, havia uma agitação no ar que soprava para longe Santo Antônio e sua fome devorada.
Trajar-se bem era o único talismã infalível empregado para manter as coisas em seus devidos lugares. Todos estavam vestidos como para um baile de máscaras do qual jamais sairiam. Do Palácio das Tulherias, através de sua excelência e de toda a corte, bem côo do Parlamento, dos Tribunais de Justiça e de toda a sociedade (com exceção dos espantalhos), o baile de máscaras descia até os verdugos, os quais, contribuindo para a elegância geral, eram convocados para o ofício “frisados, empoados, vestindo casacos engalanados de dourado, calçando escarpins e meias brancas de seda”. Nos cadafalsos e nas rodas de suplício — o machado raramente era empregado — “Monsieur Paris” (o modo episcopal pelo qual era conhecido entre seus irmãos que professavam nas províncias, “Monsieur Orleans” e os demais) oficiava com esses trajes requintados. Mas quem, dentre a multidão que aguardava nas antecâmaras de sua excelência naquele ano do Senhor de 1780, poderia duvidar da eternidade de um sistema que se assentava em verdugos frisados, empoados, enfeitados com laços dourados, de escarpins e meias brancas de seda?” 

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo VII. O Marquês na Cidade

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