CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

O BOLO

EU VIAJAVA. A paisagem, à volta de mim, era de uma grandeza e de uma nobreza irresistíveis. Decerto alguma coisa dela naquele momento se transmitiu à minha alma. Meus pensamentos esvoaçavam leves como a atmosfera: as paixões vulgares, como o ódio e o amor profano, apareciam-me agora tão remotas como as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma se me afigurava tão vasta e pura quanto a cúpula do céu que me envolvia; a lembrança das coisas terrestres só me chegava ao coração atenuada e amortecida, como o som dos chocalhos dos animais imperceptíveis que passavam ao longo, bem ao longe, na vertente de outra montanha. Sobre o pequeno lago imóvel, negro de tão profundo, passava de quando em quando a sombra de uma nuvem, qual o reflexo do manto de um gigante aéreo em vôo pelo céu. E, bem me recordo, esta sensação, solene e rara, produzida por um grande movimento perfeitamente silencioso, enchia-me de uma alegria mesclada de terror. Sentia-me, em suma, graças à arrebatadora beleza circunstante, em paz absoluta comigo mesmo e com o Universo; creio até que, na minha perfeita beatitude e no meu total esquecimento dos males terrestres, chegara ao ponto de já não achar tão ridículo os jornais que sustentam que o homem nasceu bom; - nisto, como a incurável matéria renovasse as suas exigências, pensei em reparar-me do cansaço e aplacar o apetite resultante de tão longa subida. Tirei do bolso um grande pedaço de pão, uma xícara de couro e um frasco de certo elixir que os farmacêuticos da época vendiam aos excursionistas para que o misturassem, nas devidas ocasiões, com água de neve.

Estava cortando sossegadamente o meu pão, quando um ruído muito leve me fez erguer os olhos. Diante de mim se achava um pequeno ser andrajoso, negro, desgrenhado, cujos olhos fundos, ferozes e como suplicantes, devoravam o pedaço de pão. E ouvi-o suspirar, em voz baixa e rouca, a palavra: bolo! Não pude conter o riso ao escutar a denominação com que ele se dignara honrar o meu pão quase branco, e cortei uma boa fatia, que lhe ofereci. Aos poucos ele se aproximou, sem desviar os olhos do objeto de sua cobiça; depois, abocanhando a fatia, recuou vivamente, como se temesse que a minha oferta não fora sincera ou que eu já estivesse arrependido.

No mesmo instante, porém, foi derribado por outro selvagenzinho, saído não sei donde, e tão semelhante ao primeiro que poderia ser tido por seu irmão gêmeo. Rolaram pelo chão, juntos, disputando a valiosa presa, nenhum dos dois querendo sacrificar a metade em favor do irmão. O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este ferrou-lhe os dentes na orelha e cuspiu um pedaço sangrento com um soberbo palavrão. O legítimo proprietário do bolo tentou cravar suas pequenas garras nos olhos do usurpador, que, por sua vez, aplicou todas as forças em estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra procurava insinuar no bolso o prêmio do combate. Entretanto, reanimado pelo desespero, o vencido aprumou-se, fez rolar por terra o vencedor com uma cabeçada no estômago. Para que descrever a luta horrenda, que durou mais do que seria de esperar daquelas forças infantis? O bolo viajou de mão em mão, e mudava de algibeira a cada instante; mas, infelizmente, ia também mudando de volume; e quando, por fim, extenuados, arquejantes, ensanguentados, eles pararam, pela impossibilidade de continuar, já não havia, em verdade, nenhum motivo de contenda: o pedaço de pão tinha desaparecido, disperso em migalhas semelhantes aos grãos de areia a que se achava misturado.

Esse espetáculo me enevoara a paisagem, e a serena alegria em que minha alma se espraiava antes de ter visto aqueles pequeninos homens apagara-se de todos; então, cheio de tristeza, pus-me a repetir incessantemente: - "Sim, senhor! há um país magnífico onde o pão tem o nome de bolo, guloseima tão rara que basta para provocar uma guerra perfeitamente fratricida!"

Comentários

  1. Oi, Janaína.
    Estarei nos dias 12, 13 e 14 de maio de 2010 em Porto Alegre, no II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil, apresentando uma comunicação acerca da leitura de O Bolo, de Baudelaire, em contraponto com as tragédias da fome e do terremoto no Haiti.

    Abraço,
    Profa. Generosa Souto -Universidade Estadual de Montes Claros/MG.(generosas@hotmail.com)

    ResponderExcluir

Postar um comentário