BOCCACCIO (1313-1375)

— Dignas moças: assim como, nas noites serenas, as estrelas constituem o ornamento do céu, e, assim como, na primavera, as flores o são dos verdes prados, assim também as nobres frases integram a beleza dos costumes louváveis e das conversações prazerosas. As nobres frases, por serem breves, ficam melhor nos lábios das mulheres do que na boca dos homens. Desaconselha-se mais às mulheres, do que aos homens, o falar muito e prolixamente, quando se pode evitá-lo. É provável que mulher nenhuma (ou bem poucas) haja restado, capaz de entender algum galanteador, ou de dar-lhe resposta, se o entender. E isto representa uma vergonha geral, tanto para nós, como para todas as criaturas femininas que vivem. Aquela virtude, que era ornamento do espírito, e que já existiu nas mulheres do passado, foi transferida, pelas mulheres modernas para os ornamentos do corpo. A mulher que se vê envergando os vestidos das cores mais variegadas, ostentando maior número de listas e de frisos, julga que deve ser a mais admirada, e portanto, que deve, mais do que as outras, receber homenagens. Não pensa ela que mesmo um asno, se encontra quem o vista com vestidos listados, pode envergar muito mais trajes do que qualquer mulher, e que nem por isso, entretanto, o animal merece mais homenagens do que as que um asno possa merecer. Envergonho-me de o dizer, porque não posso dizer, contra outrem, o que contra mim mesma não digo.

As mulheres da ordem a que agora me refiro, tão ornadas, tão pintadas, tão coloridas, ou tão semelhantes a estátuas de mármore, são mudas e insensíveis; ou quando respondem, ao serem perguntadas, melhor seria que se calassem. Pretendem elas, com isso, fazer crer que a pureza de espírito derive, para as mulheres, da circunstâncias de elas não saberem conversar com homens de valor; à sensaboria, dão o apelido de honestidade, como se nenhuma mulher honesta existisse, afora aquela que só se entretém com a sua aia, ou com a sua entregadora de pão. Se a Natureza houvesse querido que assim fosse, como as mencionadas mulheres aspiram a fazer crer, ela teria limitado, por outra forma, a capacidade que a mulher tem, de ser tagarela.

É verdade que, exatamente como acontece em outras coisas, também nesta se devem levar em consideração o tempo, o lugar e a pessoa com quem se conversa. Às vezes, ocorre que uma mulher, ou um homem, julga poder induzir outra pessoa a ruborizar-se, por efeito de uma frase galante; mas não mede, antes, as suas forças, com as da aludida pessoa; em conseqüência, o rubor, que acredita poder provocar nessa pessoa, em si mesma sente produzir-se. Por tudo isto, desejo que esta novela, que é a última das do dia de hoje — e que cabe a mim narrar — faça com que vocês fiquem bem informadas. Assim, vocês saberão precaver-se; assim, também, não será com base em vocês que se poderá aplicar, a todas as mulheres, o ditério que comumente se repete, isto é, que as mulheres, em todas as coisas, levam sempre a pior; assim, finalmente, uma vez que vocês se distinguem das outras, por nobreza de alma, poderão igualmente mostrar que estão separadas das outras, além do mais, pela excelência dos costumes.

O DECAMERÃO 
Primeira Jornada: Pampinéia. 
Décima Novela: Pampinéia

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