A FILHA DO CAOS

MURILO MENDES


O rio da noite banha
O alicerce das tuas pernas;
Andam brutos e assobios
Na curva, pra te cercarem;
Levanta o arco do corpo,
Sacode a aura sublime
Dos teus sovacos molhados,
Muda o rumo das estátuas,
Manda a criação se deitar...

Das nuvens do teu passado
Quem teus seios deslocou?
Quando surgiste na onda
Teu corpo logo assumiu
Uma feição quase eterna;
Os braços quando se movem
Chamam o juízo final,
Os mortos te obedeceram,
Vêm no cortejo do vento,
Mas a música reclama;
Para a consciência do som
Fizeste a ponte azulada,
Até os próprios gigantes
Palpitaram, desmaiaram,
Transformaram-se em meninos
Pra poderem te abraçar.

Que tem o peso da pedra
E a transparência da onda,
A fremência do cavalo
E o cheiro... que nenhuma tem;
Negra floresta, profunda,
Adormece em teus pentelhos;
Assisto em ti à alvorada,
À tempestade e ao crepúsculo,
Ao movimento e ao repouso...
Que nem Deus terá coragem
De penetrar em teus sonhos!
Cuspirás no meu cadáver,
Do cuspo saem rajadas
De granizo, que destroem
Este mundo e a Criação.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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