PERFIL DE TIA ZULMIRA

STANISLAW PONTE PRETA





Quem se dá ao trabalho de ler o que escreve Stanislaw Ponte Preta - e quem me lê é apenas o lado alfabetizado da humanidade  por certo conhece Tia Zulmira, sábia senhora que o cronista cita abundantemente em seus escritos. E a preocupação dos leitores é saber se essa Tia Zulmira existe mesmo.

Pouco se sabe a respeito dessa ex-condessa prussiana, ex-vedete do Follies Bergère (coleguinha de Colette), cozinheira da Coluna Prestes, mulher que deslumbrou a Europa com sua beleza, encantou os sábios com a sua ciência e desde menina mostrou-se personalidade de impressionante independência, tendo fugido de casa aos sete anos para aprender as primeiras letras, pois na época as mocinhas  embora menos insipientes do que hoje  só começavam a estudar aos 10 anos. Tia Zulmira não resistiu ao nervosismo da espera e, como a genialidade borbulhasse em seu cérebro, deu no pé.


Quando a revista SR. recomendou uma entrevista exclusiva com titia, conhecida em certas rodas como a ermitã da Boca do Mato, cobriu as propostas de Paris Match, de Life e da Revista do Rádio.

Esta é a entrevista.

Sentada em sua velha cadeira de balanço  presente do seu primeiro marido , Tia Zulmira tricotava casaquinhos para os órfãos de uma instituição nudista mantida por D. Luz Del Fuego. E foi assim que a encontramos (isto é, encontramos titia), na tarde em que a visitamos, no seu velho casarão da Boca do Mato.

Antiga correspondente do Times na Jamaica, a simpática macróbia é dessas pessoas fáceis de entrevistar porque, pertencendo ao métier, facilita o nosso trabalho, respondendo com clareza e desdobrando por conta própria as perguntas, para dar mais colorido à entrevista.

 Sou natural do Rio mesmo - explicou - e isto eu digo sem a intenção malévola de ofender os naturais da provincia. Fui eu, aliás, que fiz aquele verso do samba de Noel Rosa, verso que diz: Modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila.

E é. Tia Zulmira mostra o seu registro de nascimento, feito na paróquia de Vila Isabel. Documento importante e valioso, pois uma das testemunhas é a própria Princesa Isabel (antigamente a Redentora e hoje nota de 50 cruzeiros). Ela explica que sua mãe foi muito amiga da Princesa tendo mesmo aconselhado à dita que assinasse a Lei Áurea (dizem que o interesse dos moradores da Vila em libertar os escravos era puramente musical. Queriam fundar a primeira escola de samba).

 Por que se mudou de Vila Isabel para a Boca do Mato?  indagamos, esta cava é a única coisa que me sobrou da herança de papai e que Alcebíades não perdeu no jogo. O outro é de ordem estética. Saí de Vila Isabel por causa daquele busto de Noel Rosa que colocaram na Praça. É de lascar.

 O que é que tem o busto?

 O que é que tem? É um busto horrivel. E se não fosse uma falta de respeito ao capital colonizador, eu diria que é um busto mais disforme do que o de Jayne Mansfield.

Tentamos mudar de assunto, procurando novas facetas para a entrevista e é ainda a entrevista quem vai em frente, mostrando um impressionante ecletismo. Fala de sua infância, depois conta casos da Europa, quando daqui saiu em 89, após impressiante espinafração no Marechal Deodoro, que proclamara a República sem ao menos consultá-la.

Não que Tia Zulmira fosse um ferrenha monarquista. Pelo contrário: sempre implicou um pouco com a Imperatriz (achava o Imperador um bom papo) e teria colaborado para o movimento de 89, se não fossem os militares da época, quase tão militares como os de hoje.

 Hoje estou afastada da política, meu amigo, embora, devido mais a razões sentimentais, eu pertença a PLC.

Fizemos um rápido retrospecto dos apontamentos até ali fornecidos. A veneranda senhor sorri, diz que assim não vamos conseguir contar sua vida em ordem cronológica e vai explicando outra vez, com muita paciência: Nasci no dia 29 de fevereiro de 1872. Aprendi as primeiras letras numa escola pública de São Cristovão, na época de São Christovam e com muitas vagas para quem quisesse aprender...

O resto nós fomos anotando:

Mostrou desde logo um acentuado pendor para as artes, encantando os mestres com as anotações inteligentes que fazia à margem da cartilha. Completou seus estudos num convento carmelita, onde aprendeu de graça, numa interessante troca de ensinamentos com as freiras locais: enquanto estas lhe ministrava lições de matérias constantes do curso ginasial, Tia Zulmira lhes ministrava lições de liturgia. Mocinha, partiu para a Europa, para aproveitar uma bolsa de estudos, ganha num concurso de pernas; então foi morar em Paris, dividindo seu tempo entre o Follies Bergère e a Sorbonne. Nesta universidade, concedeu em ser mestra de literatura francesa, proporcionando a glória a um dos seus mais diletos discipulos, o qual ela chamava carinhosamente de Andrezinho.

Tia Zulmira suspende por momentos o relato de sua vida para lembrar a figura de Andrezinho, que vocês conhecem melhor pelo nome completo: André Gide.

Tia Zulmira prossegue explicando que, aos vinte e poucos anos, casou-se pela primeira vez, unindo-se pelos laços matrimoniais a François Aumert  o Cruel. O casamento terminou tragicamente, tendo Aumert morrido vitima de uma explosão, quando auxiliava a esposa numa demonstração de radioatividade aplicada, que a mesma fazia para Mme. Curie.

A hoje encantada senhora lamentou profundamente a inépcia do marido para lidar com tubos de ensaio e, desgostosa, mudou-se para Londres, aproveitando a deixa para disputar a primeira travessia a nado do Canal da Mancha. Houve quem desaprovasse essa decisão, dizendo que não ficava bem a uma jovem de boa familia se meter com o Canal da Mancha. A resposta de Tia Zulmira é até hoje lembrada.

 O Canal da Mancha não pode manchar minha reputação. Na minha terra, sim, tem um canal que mancha muito mais.

E ela acabou atravessando a Mancha mesmo, chegando em terceiro, devido à forte cãibra que a atacou nos últimos dois mil metros. Fez um jacaré na arrebentação da última onde e chegou a Londres para morar numa pensão em Lambeth, onde viveu quase pobre, apenas com os sustentos de uma canção que fez em homenagem ao bairro.

Na pensão, onde morava nossa entrevistada, vivia no quarto ao lado o então obscuro cientista Darwin, e com ela manteve um rápido flerte. Proust, cronista mundando francês que esteve em Londres na época, chegou a anunciar um casamento provável entre Tia Zulmira e Darwin, mas os dois acabaram brigando por causa de um macaco.

 Em 1913, onde estava eu?  perguntou a Tia Zulmira a si mesma, olhando os longes com olhar vago.

Lembra-se que houve qualquer coisa importante em 1913 e, de repente, se recorda. Em 13, atendendo a um convite de Paderewski, passou uma temporada em Varsóvia, dando concertos de piano a quatro mãos com o futuroso músico, que deve a ela os ensinamentos de teoria musical.


Quando o primeiro conflito mundial estourou, ela estava em Berlim e teria ficado retida na capital alemã, não fosse a dedicação de um coleguinha, que lhe arranjou um passaporte falso para atravessar a fronteira suíça. Durante a Primeira Grande Guerra, a irrequieta senhora serviu aos aliados no Serviço de Contra-Espionagem, tornando-se a grande rival da Mata-Hari, mulher que não suportava a Zulmira e  muito fofoqueira - tentou indispor a distinta com diversos governos europeus. Zulmira foi obrigada a casar-se com um diplomata neozelandês de nome Marah Andolas - para deixar o Velho Mundo.

É interessante assinalar que este casamento, motivado por interesse, acabou por se transformar em uma união feliz. O casal viveu dias esplendorosos em São Petersburgo, infelizmente interrompidos por questões políticas. A revolussão russa de 17 acabou por envolver Andolas. O marido de Tia Zulmira foi fuzilado pelos comunistas de Lenine, somente porque conservava o hábito fidalgo de usar monóculo, sendo confundido com a burguesia reacionária que a revolução combatia. Morto Andolas, Tia Zulmira deixou a Rússia, completamente viúva, após uma cena histórica com Stalin e Trotsky, quando  dirigindo-se aos dois —,  exclamou patética:


 Vocês dois são tão calhordas que vão acabar inimigos.

Dito isto Zulmira virou as costas e partiu, levando consigo apenas a roupa do corpo e o monóculo do falecido. Chegou ao Brasil pobre, mas digna, e a primeira coisa que fez foi empenhar o monóculo na Caixa Ecômica, sendo o objeto, mais tarde, arrematado em leilão pelo pai do hoje Embaixador Décio Moura, que o ofertou ao filho, no dia em que ele passou no concurso para o Imaraty.

Zulmira estaria na miséria se uma herança não viesse ter às suas mãos. O falecimento de seu bondoso pai - Aristarco Ponte Preta (O Audaz) - ocorrido em 1920 proporcionou-lhe a posse do casarão da Boca do Mato, onde vive até hoje. Ali estabeleceu ela o seu habitar, disposta a não mais voltar ao Velho Mundo, plano que fracassaria dez anos depois.

Tendo arrebentado um cano da Capela Sistina, houve infiltração numa das paredes e  em nome da Arte - Zulmira embarcou novamente para a Europa, a fim de retocar a pintura da dita. Como é do conhecimento geral, ali não é permitida a entrada de mulheres, mas a sábia senhora, disfarçada em monge e com um pincel debaixo da batina, conseguiu penetrar no templo e refazer a obra de Miguel Ângelo, aproveitando o ensejo para aperfeiçoar o mestre. Este episódio, tão importante para a História das Artes, não chegou a ser mencionado por Van Loon, no seu substancioso volume, porque, inclusive, só está sendo revelado agora, nesta entrevista.

Nessa sua segunda passagem pela Europa, Tia Zulmira ainda era uma coroa bem razoável e conheceu um sobrinho do Czar Nicolau, nobre que a revolução russa obrigou a emigrar para Paris e que, para viver, tocava balalaica num botequim de má fama. Os dois se apaixonaram e foram viver no Caribe, onde casaram pelo facilitário. O sobrinho do Czar, porém, não era dado ao trabalho e Tia Zulmira foi obrigada a deixá-lo, não se antes explicar que não nascera para botar gato no foguete de ninguém.

Voltou para o Rio, fez algumas reformas no casarão da Boca do Mato e vive ali tranquilamente, com seus quase 90 anos, prenhe de experiência e transbordante de saber. Vive modestamente, com o lucro dos pastéis que ela mesma faz e manda por um de seus afilhados vender na estação do Méier. No seu exílio voluntário, está tranquila, recebendo suas visitinhas, ora cientistas nucleares da Rússia, ora Ibrahim Sued, que ela considera um dos maiores escritores da época.

A velha dama pára um instante de tecer o seu crochê, oferece-nos um "Fidel Castro" com gelo. É uma excelante senhora esta, que tem a cabeça branca e o olhar vivo e penetrante das pessoas geniais.

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