JORGE DE LIMA (1895-1953)

Acontece muitas vezes que a velha terra fendida de sepulturas
a uma hora misteriosa e propícia
se transforma num imenso rebanho de montes e de colinas;
e a rocha abrupta vista no horizonte entrega-se, doce, às nuvens;
e as águas livres, que há milhares de anos viviam aprisionadas dentro dos gelos eternos,
correm em forma de rio:
acontece, ó amiga, que nesta hora propícia
as árvores atraem numerosos pássaros,
e os coqueirais movem-se como tentáculos,
e os penedos marinhos arrastam-se, vivos, sobre os bancos de areia;
acontece também que os parques parecem milhões de braços agitando-se em adeuses, porque é precisamente no ocaso que esta hora se dá,
esta hora em que todos os encontramos nas curvas das espirais,
e os desejos ficam intumescidos em abóbadas;
então vastos anéis nupciais, que circundam as coisas,
unem-se em unânimes estrelas armilares;
acontece, ó amiga, que nesta hora podeis ver Mira-Celi dentro de vosso olhar.

Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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