FLAUBERT (1821-1880)

O pai Rouault não ficaria zangado com quem o livrasse da filha, que quase não lhe servia na casa. Ele a desculpava interiormente, achando que tinha muita inteligência para a cultura, ofício maldito pelo céu, posto que nunca se tinha visto ninguém milionário nele. Longe de ter feito fortuna, o homem perdia ano após ano; pois, se ele obtinha bons resultados nos mercados, onde gostava das artimanhas do ofício, em contrapartida, a cultura propriamente dita, com a gestão interior da fazenda, covinha-lhe menos do que a ninguém. Não tirava espontaneamente as mãos dos bolsos e não poupava despesas em tudo que disse respeito a sua vida, querendo estar bem alimentado, bem aquecido, dormindo bem. Gostava de grandes copos de sidra, de pernis sangrando, de café com aguardente bem batido. Tomava as refeições na cozinha, sozinho, diante do fogo, numa mesinha que lhe traziam já servida, como no teatro.

MADAME BOVARY

Gustave Flaubert foi um escritor francês. Prosador importante, Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salambô (1862) e contos, tal como Trois contes (1877).

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