DICKENS (1812-1870)

Quando seu anfitrião o seguiu pela escada portando uma vela para iluminar os degraus, a luz fria do dia já espreitava através das janelas encardidas. Ao sair da casa, o ar estava frio e melancólico, o céu escuro mostrava-se carregado de nuvens, o rio turvo e sombrio, o cenário inteiro parecendo um deserto sem vida. Espirais de névoa volteavam e volteavam sob as rajadas do vento matinal, como se as areias do deserto se erguessem ao longe e avançassem, já começando a envolver a cidade.
Com suas forças exauridas e cercado pelo deserto álgido, esse homem parou um momento, quando atravessava um terraço silencioso, e, por um momento, vislumbrou, descortinando-se na imensidão à sua frente, a miragem de uma ambição digna, abnegação e perseverança. Na bela cidade que o sonho estendia diante de seus olhos havia galerias arejadas, de onde os amores e as graças se inclinavam para ele, jardins onde os frutos da vida amadureciam e regatos de esperança refulgiam-se ao sol. A visão durou apenas um instante e desvaneceu-se. Escalando a escadaria até seu quarto no alto de um prédio sombrio, atirou-se sem se despir sobre a cama desarrumada e encharcou o travesseiro de lágrimas.
Triste, tristemente o sol se ergueu. Levantou-se sobre todas as coisas e nenhuma mais triste do que a visão daquele homem de boas habilidades e bons sentimentos, incapaz, entretanto, de exercitá-los diretamente, incapaz de ajudar a si mesmo e de lutar por sua felicidade, consciente de sua má sorte, mas resignando-se a deixar que ela o conduzisse à destruição.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo V. O Chacal

Comentários