DICKENS (1812-1870)

Todos os presentes, com exceção do cavalheiro de peruca que contemplava o teto, convergiram os olhares para o réu. A respiração de todos na sala rolou em sua direção, como um mar, ou como o vento, ou o fogo. Cabeças ansiosas se esticavam à volta dos pilares e nos cantos para conseguirem vê-lo; os espectadores das fileiras de trás ergueram-se para não perderem um só detalhe de sua imagem; as pessoas no piso da corte apoiaram suas mãos nos ombros dos que estavam à frente, para usufruir, à custa de quem quer que fosse, da visão do acusado, ficavam na ponta dos pés, subiam em quaisquer saliência, equilibravam-se no nada, tudo para visualizar cada centímetro dele. Destacando-se dentre esses últimos, e parecendo um pedaço ambulante do pontiagudo muro de Newgate, lá estava Jerry, lançando em direção ao prisioneiro o hábito da cerveja que havia tomado no caminho como aperitivo, fazendo-o mesclar-se com as ondas de outros hábitos de cerveja, de gim, de chá e de café, e sabe-se lá mais o quê, que se arrojavam até ele e logo se quebravam nas amplas vidraças que ficavam às suas costas, condensando-se numa névoa úmida e impura.

O objeto de todo esse mirar e clamar era um rapaz de cerca de vinte e cinco anos, bem-criado e de bom aspecto, com a tez bronzeada e de olhos escuros. Em resumo, um jovem cavalheiro. Totalmente vestido de preto, ou verde muito escuro, tinha os cabelos compridos e negros presos na nuca com uma fita, mais com o propósito de afastá-los do rosto do que para servir de adorno. Como as emoções mais profundas se expressam no rosto, não importa atrás de que máscara se esconda, assim a palidez gerada por sua situação vencia o bronzeado da face, revelando ser a alma mais forte do que o sol. De resto, ele se mostrava inteiramente senhor de si. Curvou-se perante o juiz e permaneceu ereto e silencioso.

O interesse com o qual esse homem era contemplado e bafejado não era da espécie que eleva a humanidade. Estivesse ele sob a ameaça de uma sentença menos tenebrosa, houvesse a possibilidade de algum daqueles detalhes selvagens ser dispensado, apenas por isso teria perdido muito de seu fascínio. A figura que estava destinada a ser mutilada de maneira tão infamante era a Visão; a criatura imortal que seria abatida e esquartejada fornecia a sensação. Qualquer que fosse o verniz com que os vários espectadores procuravam encobrir o seu interesse, de acordo com a capacidade que tinham de enganar a si próprios, esse interesse era, em sua raiz, digna dos ogros.

— Silêncio na corte! Charles Darnay declarou-se ontem inocente quanto ao crime que lhe foi imputado, de traição ao nosso sereno, ilustre, excelente, etcétera, príncipe, nosso senhor o Rei, pela razão de ter,em diversas ocasiões, e por diversos meios e modos, apoiado Luiz, o rei francês, em suas guerras contra nosso sereno, ilustre, excelente, etcétera, Rei. O que significa dizer que, em suas idas e vindas entre os domínios de nosso sereno, ilustre, excelente, etcétera, e os do referido francês, Luiz, ele lhe descreveu quais forças nosso sereno, ilustre, excelente, etcétera, armava para enviar ao Canadá e à América do Norte. A esta altura, Jerry, com sua cabeça se tornando mais e mais cheia de pontas, na mesma medida em que os termos da lei se aguçavam, alcançou a compreensão, com grande contentamento, de que o supracitado, e cada vez supracitado, Charles Darnay, estava ali, diante de seus olhos, enfrentando seu julgamento, que os jurados estavam prestando juramento e que o senhor Procurador Geral se preparava para discursar.

O acusado, que estava (e que sabia que estava) sendo mentalmente enforcado, decapitado e esquartejado por todos os presentes, nem fugia da situação nem assumia uma postura teatral. Manteve-se calado e atento, observando os procedimentos de abertura com um grave interesse, de pé, com as mãos apoiadas na mesinha de madeira à sua frente, tão composto que nem desarrumou as folhas de ervas ali pousadas. A corte era juncada dessas ervas e espargida com vinagre, como precaução contra o ar do cárcere e sua febre.

Sobre a cabeça do prisioneiro havia um espelho que refletia a luz sobre ele. Multidões de malvados e miseráveis foram iluminados por seu reflexo, suas imagens estamparam-se em sua superfície e desapareceram para sempre da face da Terra. Aquele abominável lugar teria sido assustadoramente mal-assombrado se o vidro pudesse lançar de volta as imagens refletidas, como o oceano um dia renunciou a seus mortos. Algum pensamento acerca da infâmia e da desgraça para o qual o espelho fora reservado deve ter cruzado a mente do prisioneiro. Fosse como fosse, uma mudança em sua posição tornou-o cônscio do facho de luz sobre seu rosto e o fez olhar para o alto. Quando avistou o espelho, suas faces coraram e sua mão direita empurrou as ervas para longe.

UM CONTO DE DUAS CIDADES 
Segunda Parte. O Fio Dourado. 
Capítulo II. Uma Visão

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