CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

A MULHER-FERA E A PRECIOSA RIDÍCULA

- FRANCAMENTE, minha querida, você me cansa sem limite e sem piedade; quem a ouvisse suspirar diria que você sofre mais do que as respigadoras sexagenárias e as velhas mendigas que apanham crostas de pão à porta das tabernas.

"Se pelo menos os seus suspiros exprimissem remorso, lhe seriam algo honrosos; porém eles traduzem apenas a saciedade do bem-estar e a prostração do repouso. Depois, você não pára de se derramar em palavras inúteis: 'Goste bem de mim! Eu preciso tanto disso! Console-me para aqui, me acaricie para ali!' Veja! eu quero tentar curá-la: talvez encontremos o meio para isso, por dois soldos, numa festa, e sem ir muito longe.

"Observemos bem, eu lhe peço, aquela jaula de ferro por trás da qual se agita, urrando como um condenado, sacudindo as grades como um orangotango exasperado com o desterro, imitando com perfeição ora os pulos circulares do tigre, ora os estúpidos bamboleiros do urso branco, aquele monstro peludo cuja forma lembra um tanto vagamente a sua.

"Aquele monstro é um desses animais a que chamam, em geral, 'meu anjo!', isto é, uma mulher. O outro, o que grita como um possesso, de porrete na mão, é um marido. Acorrentou a mulher legítima como se fosse um animal, e exibe-a pelos arrabaldes, nos dias de feria, com permissão nos magistrados, bem entendido.

"Preste bem atenção! Veja com que voracidade (não simulada, talvez!) ela espadaça coelhos vivos e gritadoras aves de criação que lhe atira o seu tratador. - 'Vamos - diz ele - não vá comer tudo o que tem num dia'; e, com estas sábias palavras, arranca-lhe cruelmente a presa, cujas tripas enoveladas permanecem por um instante presas aos dentes da fera - quero dizer, da mulher.

"Eia! uma boa porretada para acalmá-la, pois ela dardeja olhos terríveis de cobiça sobre o alimento arrebatado! Santo Deus! o porrete não é um porrete de comédia! Ouviu ressoar a carne, apesar do pêlo postiço? Por isso os olhos agora lhe saltam da cabeça, ela urra mais naturalmente. Em sua raiva, soltam-lhe fagulhas de todo o corpo, como do ferro quando batido.

"Tais são os costumes conjugais desses dois descendentes de Adão e Eva, obras de vossas mãos, ó meu Deus! Esta mulher é incontestavelmente desgraçada, embora, ainda assim, os gozos tilitantes da glória talvez não lhe sejam estranhos. Há desgraças mais irremediáveis, e sem compensação. Porém no mundo em que ela foi lançada nunca pôde acreditar que a mulher merecesse outro destino.

"Agora, vamos às nossas contas, querida preciosa! Diante dos infernos de que o mundo está povoado, que quer você que eu pense do seu lindo inferno, você que só repousa sobre estofos macios como a sua pele, e só como carne cozida, cujos pedaços um criado hábil tem o cuidado de cortar?

"E que podem significar para mim todos esses leves suspiros que lhe intumescem o seio perfumado, robusta coquete? E todas essas afetações aprendidas nos livros, e essa infatigável melancolia, feita para inspirar ao espectador um sentimento bem diverso da piedade? Com franqueza, às vezes tenho vontade de lhe ensinar o que é a verdadeira desgraça.

"Vendo-a assim, minha bela delicada, com os pés no lodo e os olhos vaporosamente volvidos para o céu, como para pedir-lhe um rei, decerto alguém a tomaria por uma jovem rã que invocasse o Ideal. Se você despreza a vigazinha (o que eu sou agora, como você sabe), cuidado com o grou que há de trincá-la, manjá-la e matá-la a seu gosto!

"Por mais poeta que eu seja, não sou tão bobo como você gostaria de crer, e, se você me importunar muito a miúdo com as suas preciosas choramingações, eu a tratarei como a uma mulher-fera, ou a jogarei pela janela como uma garrafa vazia."

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